Valfrido Silva
Não, não estamos falando apenas de Londres dos cartões-postais, do Big Ben ou das crises palacianas que vez ou outra atravessam o oceano. Ontem mesmo, o noticiário internacional estampava a prisão do irmão do rei Charles III no rumoroso caso Epstein, reacendendo o debate sobre privilégios, responsabilidade e exemplo dentro de uma instituição que vive essencialmente de símbolo. Mas Londres desta crônica, guardadas as devidas proporções, é tão ou até mais poderoso que os filhos, todos juntos, da rainha Elizabete II. É nosso. Da paróquia de Fátima do Sul. De chão vermelho e mandato longo. Longo não: longevo.
Treze mandatos não são detalhe biográfico, são monumento. Desde a criação do Estado Londres Machado só ficou de fora uma vez, quando tentou voo mais alto como vice-governador e a urna não aprovou. Menos por ele, mais pelo cabeça de chapa, Delcídio do Amaral. De resto, sempre voltou. Sempre vitorioso. Presidiu a Assembleia por diversas vezes, lidera governos, aconselha novatos, acumula histórias. Seu gabinete virou ponto de peregrinação política: quem quer entender os bastidores da Casa, passa por lá.
Bonachão no trato, avesso a entrevistas e pouco afeito aos discursos inflamados da tribuna, nunca foi político de holofote. Sua arena sempre foi o plenário — mas, sobretudo, os bastidores. Ali, entre portas entreabertas e conversas sussurradas, construiu fama de estrategista paciente, quase maquiavélico. Fez dupla histórica com João Leite Schmidt, o “Rasputim do Pantanal”, com quem se revezou no poder e dividiu influência por longos anos na Assembleia. Enquanto uns discursavam, eles contavam votos.
E é justamente por isso que um episódio recente, repercutido hoje no Correio do Estado, simplesmente o mais antigo veículo de comunicação ainda de pé, não soa como escândalo explosivo. Soa pior: como desgaste simbólico.
Uma multa ambiental de R$ 20 mil, aplicada após o rompimento da represa do Nasa Park, em Campo Grande, entra na biografia do decano não pelo valor, mas pelo contexto. Num momento em que o Estado discute segurança de barragens e risco de novos rompimentos, ele aparece como um dos autuados por supostas irregularidades em represas. O ponto irônico da ação, até parecendo deboche, é a defesa invocar a “situação econômica do infrator” para questionar o valor da multa, classificando-o como exagerado, quase confiscatório.
E aqui, um contraponto involuntário: os próprios advogados reconhecem que os R$ 20 mil não fariam diferença em sua situação econômica. Não é incapacidade de pagar. É resistência ao pagamento. E aí a discussão deixa o campo jurídico e entra no terreno da pedagogia política.
Argumenta-se ausência de coordenadas geográficas no auto de infração, falta de precisão técnica, eventual inexistência de vistoria presencial. Teses legítimas no papel timbrado. Mas, na praça pública, soam como formalismo excessivo diante de um tema sensível: barragens, prevenção, responsabilidade ambiental. Ainda mais quando o temor de novos acidentes paira no imaginário recente da população.
Curiosamente, a defesa sustenta que Londres Machado possui diversas propriedades e múltiplas barragens, todas regularmente licenciadas. A frase, pensada para demonstrar regularidade, acaba revelando dimensão patrimonial que torna ainda mais delicado o argumento da “situação econômica”.
Por isso o paralelo inicial ganha força. A monarquia britânica sabe que o problema de um dos seus nunca é apenas individual. É institucional. É simbólico. A política também funciona assim. Quanto mais alto o posto, menor a margem para ruído ético. Quanto mais longa a trajetória, maior a responsabilidade pelo exemplo.
Treze mandatos, que começaram lá no velho Mato Grosso, constroem uma história respeitável. Mas, às vezes, não são as grandes vitórias eleitorais que marcam a memória coletiva. É o gesto aparentemente pequeno que revela postura. Vinte mil reais podem ser pouco no orçamento de quem atravessou décadas no poder. Mas pode ser muito na biografia de quem sempre foi visto como referência.
Não é Londres, a cidade distante, que nos serve de lição. É Londres, o nome próprio que simboliza perenidade. Permanecer, porém, exige mais do que vencer eleições sucessivas. Exige coerência. E um bom exemplo, seja na realeza ou na política sul-mato-grossense, nunca é coisa pequena.
