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Haja resistência

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10/05/2009 – 11:05

Com sua costumeira paciência de Jó o ex-prefeito Luiz Antonio Álvares Gonçalves gostava de aliar a necessidade de combater o estresse a uma prática pouco convencional a um homem público, aproveitando as poucas horas de folga, nos finais de semana, para pequenos consertos e reparos domésticos. Trocava lâmpadas queimadas, consertava vazamentos de torneiras, instalava chuveiros e até dava uns retoques na pintura das paredes, quando não era visto conferindo telhas quebradas. Era tão cuidadoso que até abusavam de sua boa vontade. O decano da advocacia, João Beltran, era um dos que recorriam a seus préstimos sempre que chegava na casa que mantinha em Dourados para curtas temporadas e se deparava com alguma coisa estragada.

Lembrei-me de meu ex-chefe na manhã deste sábado, depois da virada do tempo que já no dia anterior obrigou-me a invadir a privacidade do meu sistemático caçulinha, o Felipe, para filar um banho quente. Há meses que a resistência de meu chuveiro está queimada e meu sogro, seu Manoel, um dos mais solicitados eletricistas da cidade, empurra-me com a barriga. Havia resolvido executar o serviço já há uns quinze dias e até cheguei a comprar a pecinha. Faltava só coragem.

O conserto precisa ser feito de manhã, já que teria que desligar a energia da casa e só neste horário os raios do Astro Rei alumiam o interior de meu banheiro. Armei-me com um alicate e, depois de ler o manual de instalação umas dez vezes, mãos a obra! Desrosqueia daqui e dali, puxa um fio pra cá, põe uma mangueira pra lá. Até aqui o Laquicho vai bem! Afinal, isso não deve ser bicho de sete cabeças, pelo menos para quem já executou aquelas três tarefas que fazem um homem se realizar plenamente na vida: fazer um filho (eu tenho quatro), plantar uma árvore (meu Ipê, presente de Harrison de Figueiredo, que havia morrido, brotou de novo e deve voltar a florir na próxima primavera) e escrever um livro (o meu primeiro já teve sua edição esgotada). Ledo engano. Depois de tudo montado e conferido, o primeiro jorro de água fria, conforme manda o manual. Jóia. A água desceu legal. Enquanto Anita religa a energia no padrão, lá embaixo, pego um sabonete daqueles que vem numa caixinha, que havia guardado para uma ocasião especial. Além do banho quente de reinauguração do chuveiro por mim consertado, na manhã deste sábado, o da noite também requer um sabonete desses bem cheirosos, já que sou um dos convidados para a uma reuniãozinha com um restrito grupo de jornalistas e artistas para comemorar o níver da amiga Blanche Torres. Tchan, tchan, tchan, tchan! Respiro fundo, aciono o botão para o lado esquerdo, o que indica água quente. Abro a torneira. A água desce. Gelada! Segue-se um estouro. Lá se foram os sete pilas que guardei num cantinho da carteira durante toda a semana para tomar uma cervejinha no almoço do dia das mães com a Anita e a sogra.

Pensei, até, em usar novamente o banheiro do Felipe, mas diante da frustração e ali todo encarangado de frio, lembrei-me de outro querido e saudoso amigo, o médico e ex-vereador Áureo Garcia Ribeiro que recomendava, sempre, banho frio para não se contrair gripe. Enquanto a água gelada caia no lombo acabei chegando a conclusão que existe coisas bem piores do que um banho gelado, como, por exemplo, o frio que dá na barriga ou a dor na alma quando chega uma notícia como a que me foi dada em primeira mão na noite da última quinta-feira pelo jornalista Luiz Carlos Luciano: “O pessoal do Valdecir acaba de derrubar o Ervateiro”. Enrolei-me numa toalha fiquei pensando sobre o próximo desatino do excelentíssimo. Será que o tombo agora vai ser na história do finado Getúlio, cuja estátua está cem metros abaixo de onde estava o simpático ervateiro ou ele vai querer “endireitar” o tenente Antonio João Ribeiro, curvado até hoje, na Praça Antonio, em defesa da Pátria amada?

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