14/10/2009 – 18:10
A
minha nova função na TV Senado me exige algo que deixei de ter por excelência:
a audição. Em tom de brincadeira, costumo dizer que até o dia 2 de fevereiro de
2006 eu era estéreo. De lá pra cá, sou mono. Brinco com uma verdade profunda.
Mas brinco, porque essa é a minha natureza.
Inorbel Maranhão Viegas *
A oportunidade de ficar na TV Senado desses novos tempos me obrigou a exigir de mim algo que não tenho mais. E como sou feito de improbabilidades, aceitei. Já tinha tido a noção do que é ter que escutar sem ouvir direito. Perdi 80% da capacidade auditiva do ouvido esquerdo depois da cirurgia que me livrou de um tumor.
Comemorei a vida. Isso também é da minha natureza. Tanto, que eu acho que quando não houver mais nada entre a vida e a morte, eu saberei comemorar o que vier. Mesmo sem saber hoje o que isso significa.
O fato é que, enquanto estou aqui, me dou ouvido daquilo de que consigo. E sigo comemorando. Inaugurando etapas que não vivi antes, por absoluta ignorância. Experimentando o dom da deficiência consentida, convivida, inevitável.
Hoje vivi com mais intensidade a exigência de me concentrar. Talvez ai esteja o sentido de tudo. Nos últimos tempos, o que para alguns parece tristeza, ou distanciamento, ou instabilidade de humor ou intolerância, é em verdade o estágio necessário de compreensão, de aceitação e de domínio da minha assumida deficiência – a surdez. E se é verdade que ela me tirou algo, também é verdade que me obrigou a descobrir outro tanto de coisas para as quais eu não dava valor.
Como dizia, hoje, na minha nova função na TV Senado, experimentei esse novo. De novo. Mas desta vez, com mais domínio e com maior controle. Havia um certo silêncio na sala, que batizei de pré-sal. (Pelo frio, pelo estranhamento, pelo inóspito, pelo longe de tudo e de todos e, por fim, por não saber ao certo o que vai sair de lá ainda que tenhamos a compreensão de que está lá uma das maiores riquezas do Senado. Tal qual o pré-sal do Lula.)
Minha tarefa era transcrever a essência de uma reunião da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária. Eles, os senadores e os convidados, demoraram a chegar. A CRA, como chamamos internamente num código que só nós sabemos, é presidida hoje por um personagem que eu conheço bem – senador Valter Pereira. Ele veio lá do lugar onde vivi durante 23 anos, Campo Grande, Mato Grosso do Sul. E apesar do esforço que fez, apesar de ter sido deputado constituinte, chegou ao Senado pela porta do fundo, como suplente de Ramez Tebet, que morreu de câncer e lhe deu a vaga em definitivo, para rico um período de meio mandato.
Mas isso não importa. Pelo menos pra mim, não importa. Importa que os convidados da audiência pública, que iria discutir projetos federais para os agricultores da Amazônia Legal e a legitimidade dos repasses de recursos federais ao MST, tinham um quê de especial que raramente vi, que faz falta nestes últimos anos a uma casa que nasceu para ser a alta corte do país, a mais alta.
De um lado, sentado à direita do presidente da comissão, em lado oposto às suas mais primitivas convicções, Plínio de Arruda Sampaio. Um distinto senhor, de casta aristocrática e opção marcadamente social. De outro, à esquerda da presidência e à direita da luz do pensamento, Luiz Marcos Haffers, um respeitável senhor, mais imponente pelo que viveu na relação com a terra do que pelos títulos de academia que não ostenta.
Mais próximo do centro, o ministro Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário. Foram três horas e quarenta minutos de audiência, enquanto o meu turno não acabou.
Foi uma aula de vida pra mim. O meu ouvido que não ouve direito se esforçou o suficiente e necessário para ouvir e me permitir transcrever a fala daqueles senhores bem mais vividos que eu. Que clareza de idéias, de um lado e de outro! Não falo do ministro, que tem lá a sabedoria necessária para lhe permitir ocupar tão importante cargo. Falo dos outros.
Porque a fala do ministro foi o que se esperava. Mas eu não esperava ouvir de Plínio de Arruda Sampaio a linha de raciocínio corajosa e despojada que ele usou. Disse com clareza das suas convicções e da sua consciência. De uma forma límpida lançou alertas sem medo e fez um apelo aos senadores: Os que estão naquela casa têm obrigação de produzir o diálogo. De encontrar o caminho e buscar o que é lícito, o que é ético. E de rever decisões quando isso se fizer necessário.
Em seu raciocínio direto atingiu com a mesma lâmina senadores fracos e grileiros oportunistas. E deu-lhes a chance de se redimir perante a nação. Não aos grileiros, aos senadores. Não que ele estivesse completamente certo. Mas havia um brilho em seus olhos, um brilho íntegro e juvenil que tisnava, com a crueldade e a delicadeza que só aos sábios cabe empunhar, os brios de quem não resistia à própria imagem diante de um espelho.
Quando Luiz Haffers falou não fui só eu quem quase não ouviu. A voz lhe saia com o peso do desgaste do tempo. Confessou, quase num calado, não ser doutor senão das próprias marcas que a lida no campo lhe impingiu. Por trás dos cabelos brancos que lhe revestem o rosto mostrou-se um homem íntegro, sem vergonha dos credos, firme na sua fragilidade e vivo em sua convicção.
Não admite a generalização, diz ele. E obtém o silêncio como anuência. Divide-se entre duas paixões – o café que planta e a companheira que tem. E, ainda hoje, se divide. E, ainda hoje, carrega amor suficiente para repartir-se entre as duas paixões sem ter que necessariamente escolher uma ou outra.
Foram quase quatro horas de esgrima entre dois homens sinceros. Não, não havia espaço para a mediocridade; para vencidos, ou vencedores. Havia espaço para o debate. Para o confronto de idéias, para a esgrima inteligente de mosqueteiros incomuns, que se contrapõem e se completam.
Havia um debate sobre a função social da terra. E havia um cenário onde apenas dois homens brilhavam. Os outros, todos, foram coadjuvantes de uma história para a qual estão fadados a nunca serem protagonistas. A não ser pelo acaso.
Horas depois, procurei na mídia o relato da reunião e me deparei com fartas caricaturas. O Senado viveu um raro momento em meio a essa tsunami moral que não tem data pra terminar.
A reforma agrária não se resolve em uma audiência pública. Mas um país de verdade se faz de homens de verdade, de pensamento firme, com ética e com coragem para não ser banal.
Ontem, o Senado viveu um dia especial, numa comissão que não dá ibope, num horário que pouco atrai. Ontem, meu ouvido surdo escutou muito mais do que imaginava poder. Muito menos do que devia.
* Jornalista/Brasília
