12/12/2009 – 19:12
Por muito menos que toda a lambança feita neste primeiro ano de mandato pelo prefeito Ari Valdecir a Câmara Municipal quase cassa o mandato de um dos maiores prefeitos da história de Dourados – José Elias Moreira. Era 1978. No afã – e diante da necessidade – de mudar a história administrativa da cidade, como havia prometido na campanha eleitoral, o filho de seu Quinzito contratou, sem licitação, alegando notória especialização, uma empresa de consultoria do Rio de Janeiro. O mundo veio abaixo. O Tribunal de Contas do Estado rejeitou as contas do primeiro ano da administração de Zé Elias e, veja só, a Câmara ratificou o parecer daquela Corte, mandando a encrenca para o Judiciário.
Os tempos eram outros, mas já havia a marcação cerrada de um repórter, que um dia viraria blogueiro, da única emissora da cidade (Rádio Clube), que colocou o povo na rua para exigir um posicionamento da Câmara. É que, depois de exaustivos debates, tudo apontando para uma votação desfavorável ao prefeito, entrou em ação a Nosde Engenharia, a grande empreiteira (sempre elas!) da época e alguns vereadores começaram a fraquejar.
Imagina se isso acontece hoje. Quando descobri que os vereadores estavam sendo convocados por Edson de Freitas, fiquei plantado no portão dos fundos da Nosde e, na saída, os entrevistava, com as mais indiscretas das perguntas.
No dia da votação que decidiria a sorte de Zé Elias a rádio de Jorge Antonio convocou a população para comparecer àquela sessão histórica. Os vereadores se reuniam num acanhado espaço de um sobrado no centro da cidade. Um quarteirão inteiro, o mesmo que sempre foi palco de memoráveis concentrações políticas, ficou tomado por eleitores que gritavam “fora Zé Elias”.
Acertados ou não com a empreiteira, e com o prefeito, a verdade é que os vereadores não aguentaram a pressão popular e jogaram o pepino para o Ministério Público.
Para azar de Zé Elias, o processo caiu nas mãos de um promotor (Ari Fonseca) que era meu companheiro de chope nos fins de tarde, na Caneca. Caberia a ele fazer (ou não) a denúncia, encaminhando, aí, sim, em caso positivo, o pedido de cassação, ao Fórum. Mas o sempre todo poderoso e profundo conhecedor do Direito, João Leite Schimidt, acompanhado de Londres Machado, fez uma visitinha a Fonseca, convencendo-o de que aquilo não levaria a nada, que não havia embasamento legal para cassar o prefeito. Promotor na Comarca de Rio Brilhante, cobrindo férias de um colega em Dourados, Fonseca pulou o tempo que precisava cumprir em Dourados, que ainda não era entrância especial, sendo promovido direto, de Rio Brilhante para Campo Grande. E o processo contra Zé Elias foi arquivado.
Vereadores da época, que, bem ou mal, passaram à história, por cumprirem com suas obrigações: Anis Faker, Celso Amaral, Daniel Nóia, Joel Pizzini, Juarez Fiel Alves, Nilson Vieira Matos, Mariano Cândido deArruda, Ramão Moacir da Fonseca, Roberto Djalma Barros, Saul Freire, Sultan Rasslan,Valdenir Machado e Walter Carneiro. Veja que destes, cinco viraram deputados e um (Saul Freire) prefeito.
Claro que não dá para comparar Zé Elias com Valdecir e, naquele momento, reconheço hoje, sua cassação teria sido um desserviço à cidade, mas os eleitores de agora que marquem bem os nomes de seus vereadores, diante, não só do que está para ser votado no apagar das luzes deste primeiro e conturbado ano de mandato de Ari Valdecir, mas, principalmente, pelo que está para acontecer em decorrência das operações Owari, Brothers etc. e tal. Sim, porque se a chicanas que travam o processo judicial impedirem um desfecho pelo menos razoável da mais grave crise político-institucional-policial da história, só mesmo, como dizia Dr. Ulysses Guimarães, a voz rouca das ruas para deter o avanço de tanta barbaridade. E tudo começa assim, com protestos como o de hoje cedo no centro da cidade, com panfletagem (foto), passeatas e palavras de ordem. Daí para a invasão do Palácio Jaguaribe e da prefeitura, é um pulo. Suas excelências, os nobres edis, que fiquem espertos. Ou vão todos para o beleléu, juntos com o Ari e sua caterva.
