03/01/2010 – 18:01
Nicanor Coelho/Midiamax
A vida começa aos quarenta anos de idade. Será essa assertiva verdadeira? E se for? Quando chegarmos aos sessenta enfim estaremos novamente na fase adulta? Pode ser que sim! Ou não! Verdade ou não, o fato é que os homens quanto se transformam em sexagenários ficam melhores, mais sábios, mais complacentes, mas pacienciosos e cônscios de seu verdadeiro papel na sociedade. Outros mais engraçadinhos dizem que ficam mais “sexy”. Talvez “sexyxagenário?”
Homens com mais de sessenta tiveram uma educação mais primorosa mesmo passando pelos bancos de escolas públicas. Aprenderam latim, francês, aritmética e uma infinidade de prendas e rendas. São homens que construíram as suas histórias e das cidades onde nasceram ou viveram.
Emar, Telê, Zé Paulo e Odilon (na foto) fazem parte deste universo formado por homens com mais de sessenta anos que viveram dias memoráveis na Escola Estadual Presidente Vargas de Dourados. O último integrante desta trupe (e também da foto) é o jornalista Valfrido Silva Melo, que ainda não é um sexagenário, mas está bem perto desta marca.
Eles fazem parte da história da educação de Dourados, assim como professores, diretores e tantas outras pessoas que ajudaram a construir o legado da mais importante escola do município que será totalmente remodelada pela habilidade do traço do arquiteto Ângelo Arruda contratado para fazer o projeto do novo “Presidente Vargas”.
A escola que povoa o coração de dez entre dez jovens das décadas de 1960, 1970 e 1980 vai ganhar maquiagem, novas colunas, tijolos, areia, cimento e um banho de tinta para encarnar um novo templo. Tempo de se preparar para as comemorações dos seus sessenta anos de existência.
Em 2018 a escola que formou Emar e seus amigos também será uma sexagenária. Não tem como falar da Escola Presidente Vargas sem falar dos professores Celso Muller do Amaral e de sua esposa Neusa, apaixonados pela arte de amar-educando que doaram a área onde está perpetuamente o templo da educação.
Encravado no centro da cidade na Rua Oliveira Marques, impedindo sem piedade o sangramento da rua Dr. Nelson de Araújo, o “Colégio Estadual” de outras décadas, da geração de Emar e Odilon é o mesmo da geração de garotos e meninas da era da internet e do “note-book”. São os homens sexagenários que relembram com garbo o tempo em que aprendia sobre a vida a ser vivida e viviam estripulias e emoções incontidas.
Emar dos Santos Rodrigues, aos sessenta e cinco anos de idade é um engenheiro civil bem sucedido. Construiu muitos prédios em Dourados. Emar era daqueles garotos curiosos que queriam ser grandes. Ele lembra que estava no dia da inauguração da escola Presidente Vargas. Chovia, chovia,chovia sem parar. Um trator de esteira foi a estrela da festa. A força imponente do motor da super-máquina desatolava os carros na Nelson de Araújo.
O engenheiro lembra que havia feito um curso de Rádio por correspondência pelo Instituto Monitor. Sabia de tudo sobre a transmissão e recepção de vozes. Acabou realizando uma super-tarefa na disciplina de Trabalhos Manuais ao construir um rádio com válvulas. A caixa de madeira foi feita pelo amigo Zé Camargo.
O sucesso do feito foi tão grande que Emar ganhou da professora Neusa Amaral nota dez em todos os bimestres. Oduvaldo Pompeu de Oliveira, o “Telê” é outro daqueles ginasianos que passaram pelo “Vargas”. Hoje aos 62 anos de idade é um delegado de polícia aposentado e o homem mais ecologicamente correto de Dourados. Passeia o dia inteiro pedalando a sua Barra-Forte assim como o escritor de “Vida Cachoeirinha”.
Tele disse que deve muito da sua formação profissional e pessoal ao velho Presidente Vargas. “Devo muito a esta escola”, conta emocionado o delegado relembrando os sucessivos anos que participou da fanfarra campeã do Vargas. O advogado José Paulo Teixeira é um sessentinha tranqüilo. Também estudou no Presidente Vargas.
Aos 64 anos de idade, Zé Paulo é um homem bem sucedido e feliz em Dourados. Ele lembra que o Vargas foi a primeira escola pública a oferecer o curso ginasial na cidade, o que corresponde hoje ao período da sexta a nova série do ensino fundamental. “Foi a saída para os filhos das famílias pobres”, explica. Zé relembra a manhã do dia oito de janeiro de 1958.
Com doze anos de idade estava na sala para estudar e a aula foi interrompida por causa de uma tentativa e invasão dos lavradores da CAND (Colônia Agrícola Nacional de Dourados). Os colonos brigavam por seus direitos e assim a história do Presidente Vargas continuou. Zé Paulo fez parte da primeira turma do curso ginasial do “Velho Vargas”. Ele relata que apenas 47 dos 135 alunos que começaram o curso conseguiram o diploma.
Odilon Azambuja, o contador-dos-contadores de Dourados, hoje gerencia toda a água tratada usada pela população sem deixar de lado as lides da “Pena Fiel” do seu escritório de contabilidade tão tradicional quanto o Presidente Vargas. Odilon passou pelo Vargas de 1963 a 1968. Foi da terceira turma. Aos sessenta anos de idade, Odilon elogia a dedicação extremada do casal Celso e Neusa ao Vargas.
Em dezembro um convescote foi realizado no auditório da Escola Presidente Vargas para que fosse apresentado o projeto, maquete e outros sonhos para a reconstrução da mais importante escola pública de Dourados.
Deputados, vereadores, professores e alunos presentes. Feita a chamada os sessentões Emar, Tele, Zé Paulo, Odilon permaneceram caladinhos na última fila. Junto também estava o cibernético-pós- moderno-blogueiro Valfridão, cinco anos mais jovem. Enquanto o proselitismo ecoava pela imensa sala, o quinteto deblaterava animadamente.
Cada um com sua história. Cada qual com o seu cada qual. E todos por um ideal. A idéia era se formar no Vargas e encontrar um lugar ao sol. Encontram o sol inteiro e hoje orgulham seus familiares, a cidade e o próprio Presidente Vargas. Valfrido, o mais afoito, o mais peralta também fez o colegial no Vargas anos depois que Telê, Emar, Zé e Odilon.
O jornalista lembra-se de muitos fatos pernósticos. Um deles transformou-se em folclore. Valfrido conta que em 1968, a Irmã Josephina era a diretora do Vargas. Por conta das estripulias da sua turma festeira, a freira aprendeu a dançar e a festar. Mudou de hábito. Valfrido disse que por causa das festanças dos ginasianos ela conheceu o refinado Antonio Tonanni, o mais belo rapagão da paróquia. A irmã apaixonou-se. Queria namorar o príncipe. Não conseguiu.
Voltou para o Rio Grande do Sul para continuar a sua história enquanto o Tonanni criou a primeira emissora de rádio FM de Dourados e continuou a contar suas lorotas soturnas no calçadão do Kikão.
Valfrido, Odilon, Zé Paulo, Oduvaldo e Emar já fazem parte da história do Presidente Vargas. Cabem as novas gerações de estudantes ficarem atentas para que a nova escola seja realmente nova. Que os políticos cumpram o que prometeram. Que a educação não seja feita apenas de prédios e equipamentos de última geração. Que a educação seja feita com homens e com livros. Que a Escola Presidente Vargas, revigorada entre no rol dos “sessentões” cada vez melhor e que a exemplo do que foi feito pelo quinteto do passado, fabrique a partir dos jovens que agora fazem parte do corpo discente homens e mulheres de excelente caráter.
E para que isso aconteça é necessário que professores e professoras sejam respeitados e que neste novo momento. Que pavimentem com amor e alegria esta nova estrada para conduzir o Presidente Vargas para o seu centenário.
