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quinta-feira, julho 2, 2026

A malsinada trajetória da política douradense

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05/04/2010 – 16:04

Em 1982, ao deixar a prefeitura para disputar o governo do Estado, José Elias Moreira até que se esforçou para tentar desfazer o “trabalho” das tais forças ocultas contra a classe política de Dourados. Mandou contratar Félix Rodrigues, o mais famoso pai de santo do Estado, para que se macumba houvesse fosse logo desfeita. Fui encarregado de intermediar a negociação com o macumbeiro, em Campo Grande. Numa sexta-feira de madrugada, em companhia de Antonio Tonanni, Archimedes Lemes Soares (Ferrinho), Ito dos Reis (Pindó), Alberto Campos Perdomo e Antônio Luciano (pai de santo do Parque das Nações) pulamos o muro do cemitério atrás da cabeça de burro ou do que fosse que pudesse atrapalhar a chegada de Zé Elias ao Parque dos Poderes como primeiro governador eleito do Mato Grosso do Sul. O máximo que achamos foram alguns nomes de familiares e assessores do candidato enterrados numa cova rasa. Meio desconfiado, levei embora o pai de santo e seu cambone e nunca mais se falou no assunto. Zé Elias perdeu a eleição e Dourados a oportunidade de se firmar definitivamente como potência política do novo Estado.

Agora, diante do nhenhenhém envolvendo a candidatura de Murilo Zauith ao Senado, volta a lenda da cabeça de burro que, diante de tantas evidências, estaria enterrada na Praça Antonio João, já que nem as obras do local se consegue terminar, para que a praça volte a ser praça (mas esta é uma encrenca para o deputado Geraldo Resende resolver com seu desafeto, o Valdecir). A importância – e a urgência – de se achar e se dar um fim à tal cabeça de burro ou a qualquer trabalho de macumba que ali ou acolá tenha sido feito fica mesmo por conta de mais uma eleição que se aproxima e do desespero dos douradenses de, mais uma vez, ficarem a ver navios. Pior, desta vez, nem como coadjuvantes, já que até a vaga de vice-governador se perdeu.

Pelos registros da história a macumba política contra Dourados vem de longe. E, depois dessa tentativa frustrada de Zé Elias, da única vez que se sabe ter partido de alguém daqui algum “trabalho” para desfazê-la, o feitiço virou contra o feiticeiro. Quer dizer, nem como aprendizes de feiticeiro os políticos daqui emplacam.

O grande líder político regional antes da divisão do Estado foi Totó Câmara. Vereador, deputado federal e prefeito duas vezes, no plano estadual, à época, estava numa fila atrás de pesos pesados como Pedro Pedrossian, Rachid Saldanha Dérzi e Antonio Mendes Canale. Mesmo assim, em 1986 arriscou-se como candidato ao Senado, concorrendo com Wilson Martins, Rachidão e Pedrossian. Depois dele, João Derli também ousou virar senador, com chances menores ainda e, em 2006, Egon KKK, já numa eleição de cartas marcadas.

Finda a era Totó Câmara, quando o prefeito de Dourados batia no peito e dizia que o governador do Estado só apitava do Rio Brilhante pra cima, veio, com o novo Estado, a liderança de José Elias Moreira. Como se viu, nem com saravá chegou lá. Da linhagem de Totó, ainda, viria, na sequência, o “fenômeno” Braz Melo, capaz de, enfim, chegar ao governo do Estado e a tudo mais que almejasse na política estadual, por quanto tempo quisesse. Foi brigar com Valdenir Machado, deu no que deu.

Antes disso Dourados teve dois grandes líderes sobre os quais recaiam as esperanças do eleitorado: Vivaldi de Oliveira e Weimar Torres. Vivaldi, morto neste final de semana, liderança trabalhista consolidada no período da Colônia Federal, pintou como primeiro grande fenômeno eleitoral, mas abandonando a vida pública por orientação de seus mentores espirituais. Weimar Torres, cria de Filinto Muller, apontado como capaz de desbancar até mesmo o todo poderoso Pedro Pedrossian, foi abatido pela fatalidade durante um voo entre Dourados e Brasília, quando exercia seu primeiro mandato como deputado federal, morrendo no aeroporto de Londrina.

Murilo Zauith ainda não jogou a toalha, mas pelo andar da carruagem é bem provável que seja o próximo a perder o bonde da história, entrando para a lista de triste sina das lideranças políticas douradenses.

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