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segunda-feira, agosto 15, 2022

Simone ou Mandetta no Planalto, e por que não?

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No apagar das luzes da legislatura passada fui sondado por um assessor do Senado querendo saber de meu interesse em participar uma licitação para produzir a biografia do ex-presidente da Casa, senador Ramez Tebet. Respondi que topava, desde que pudesse escrever a verdade verdadeira sobre a trajetória do eloquente político mato-grossense do Sul, não apenas para seu endeusamento, até porque o trabalho seria pago com dinheiro do contribuinte, daí o porquê de não haver razões para subterfúgios. Talvez por saber que conheci Ramez Tebet como poucos, em algumas situações até mais que o fiel escudeiro Santa Rosa, não apenas como jornalista, mas como parceiro e, como tal, testemunha de algumas transações, digamos, não muito republicanas, daí às inevitáveis histórias de alcova que, nesses casos, sempre merecem um capítulo especial. O assessor nunca mais tocou no assunto. Nem sei se saiu a bendita biografia de Ramez, prefeito de Três Lagoas, secretário de Justiça, deputado, senador, presidente do Congresso e Ministro da Integração Nacional.

Agora vem a filha, senadora Simone Tebet, não tão brilhante como o pai, mas querendo passar à frente na história como a primeira mulher do Mato Grosso do Sul a disputar a presidência da República. Simone, vice-governadora de André Puccinelli, que uma vez eleita senadora, deu uma banana para o eleitorado do estado. A mesma Simone que, sedenta pela água limpa do boi que chega primeiro, tão logo Bolsonaro subiu a rampa, pagou um dos maiores micos do Congresso, numa demonstração de total ignorância quanto à hierarquia militar, na mesma tribuna que agora usa para espinafrar o presidente bradando que “capitão manda mais que general”, sugerindo a ele que “pegasse seu quepe e começasse a governar”.

Pena que Simone ou Mandetta não possam se apropriar da marca usada pelo conterrâneo Jânio Quadros para se eleger presidente da República – uma vassoura para varrer a corrupção do Brasil.

Comentando um texto aqui publicado a respeito do lançamento da candidatura Tebet, o leitor Takeshi Matsubara sintetizou o que deve ser o sentimento de uma boa parcela da população do MS: “Quem não te conhece que te compra”. A referência, claro, à administração de Simone Tebet como prefeita de Três Lagoas, cujos processos tramitam até hoje na justiça, inclusive com a penhora de seus bens. Não à toa o visível constrangimento dela ao posar para uma foto ao lado do padrinho político André Puccinelli nesse final de semana num evento social em Campo Grande em homenagem ao pai. Imaginemos um palanque, Simone presidente; Puccinelli governador. Uma delícia para o sempre insubordinado Marquinhos Trad, para Rose Modesto, Zeca do PT e até Eduardo Riedel. Num eventual debate entre presidenciáveis, para o desbocado Ciro Gomes deitar e rolar. Isto se, por razões óbvias, esse povo todo não se juntar num mesmo palanque. Sim, porque Simone pode também ser a vice na chapa de Lula e aí a coisa vira de cabeça pra baixo, podendo os holofotes se voltarem, de novo, para Mandetta.

A questão que fica é se o contundente discurso da professora e advogada Simone Tebet, não apenas como presidente da poderosa Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas principalmente por sua participação na CPI da Covid-19, vai colar diante do eleitorado nacional. Para um país que teve a folclórica Dilma Rousseff presidente, por que não Simone? Como, para a classe política, essas questões de corrupção parecem irrelevantes, que se aproveite o boom político vivido pelo Mato Grosso do Sul. Não só com ela, mas também com Luiz Henrique Mandetta, sobrevivente do governo Bolsonaro e alçado, também, à condição de presidenciável, na esteira do sucesso como ministro da Saúde no início da pandemia.

Aos que argumentam que Mato Grosso do Sul é um estado pequeno, com o eleitorado mais ou menos equivalente ao de um bairro como o do Ipiranga, na capital paulista, lembrando que Alagoas, bem menor, brindou o Brasil com o espalhafatoso Collor de Melo. Tanto que Simone e Mandetta não seriam os primeiros, no caso, mato-grossenses, nessa audaciosa pretensão. Antes, lá na década de 1940, o marechal Eurico Gaspar Dutra, um cuiabano que era ridicularizado por sua fala fina, mas que sucedeu Getúlio Vargas na presidência. Depois, em 1961, o pernóstico campo-grandense Jânio da Silva Quadros, que, além de seu português empolado – “fi-lo porque qui-lo” – era de um azedume extremo, talvez pelo excesso de biritas no dia-a-dia – “bebo porque liquido é, porque se sólido fosse comê-lo-ia” – o que deve ter provocado a inesperada renúncia à presidência da República.

O que vale agora, pois, é a inédita inserção do Mato Grosso do Sul, um dia parte do velho Mato Grosso, no contexto político nacional. E tirar o máximo de proveito disso. O Mato Grosso, que além do Marechal-presidente Eurico Gaspar Dutra deu ao Brasil uma das figuras mais impolutas do governo Getúlio Vargas, o sombrio e temido chefe de polícia, depois senador e presidente do Congresso, Filinto Muller; o Mato Grosso do Sul, como remanescentes do velho estado, os senadores Rachid Saldanha Dérzi, de um poderio ímpar durante o regime militar, e os governadores e senadores José Fragelli e Ramez Tebet, ambos também presidentes do Congresso.

Como Simone Tebet ficou conhecida do eleitorado nacional mais por sua exposição em defesa da vida na CPI da Covid-19 do que pelas pendengas da política regional; da mesma forma Mandetta, alçado à condição de presidenciável por sua postura firme, até por desafiar o negacionismo bolsonarista na condução do Ministério da Saúde no início da Pandemia, vai que cola! Nada que um bom marqueteiro não dê jeito. Pena que, por seus históricos, Simone ou Mandetta não possam se apropriar da marca usada pelo conterrâneo Jânio Quadros para se eleger presidente da República – uma vassoura para varrer a corrupção do Brasil.

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