Quando convidado, em 2014, pelo então governador André Puccinelli para ser candidato a primeiro-suplente de Simone Tebet ao Senado o agropecuarista Celso Dal Lago ficou numa sinuca de bico. É que ao final de sua primeira experiência no mesmo “cargo”, durante o mandato do senador Juvêncio da Fonseca, por indicação do mesmo Puccinelli, aborrecido pelo não cumprimento da promessa de que assumiria o mandato de senador por quatro – na pior das hipóteses por dois – anos, Dal Lago cunhou uma frase que serviria como um divisor de águas na política douradense, agora, com sua morte, servindo de legado para as novas gerações:
“Já passou da hora de Dourados deixar de ser a terra de vices (governadores) e de suplentes”.
A sentença foi proferida em meados de 2004, durante exibição em rede estadual de TV de um programa partidário do PP, partido à época presidido por Dal Lago em Mato Grosso do Sul. Já corria a metade do mandato de Juvêncio da Fonseca, que, pelo compromisso de Puccinelli, deveria deixar o Senado em 2002 para disputar o governo do Estado. Pela conversa, o empresário douradense assumiria o Senado por quatro anos, com a eleição – tida como garantida – de Juvêncio da Fonseca para o governo do estado. Em último caso, dali a dois anos, quando senador seria reconduzido à cadeira de prefeito de Campo Grande, que a ele seria devolvida, depois de oito anos, também por André Puccinelli, aí já na ponta dos cascos para se eleger governador do estado 2006. Nem uma coisa nem outra.

Celso Dal Lago, em Brasília, com o senador e ex-ministro da Educação, Jarbas Passarinho
Pior que a desonra do compromisso foi a descortesia de Juvêncio da Fonseca, já que Dal Lago sequer foi convidado para a cerimônia de posse, o que reforça o desrespeito das ditas lideranças políticas “da capital” (vou destrinchar isso num próximo texto) com a classe política da terra de seu Marcelino. O terno para cerimônia de posse de Juvêncio, lá atrás, ficaria guardado por oito anos, na expectativa da posse do tão sonhado primeiro senador douradense (Soraya Thronicke não conta).
O tempo passou, Juvêncio da Fonseca deixou o mundo dos vivos e, nesse entremeio, já encerrando seu ciclo como governador, André Puccinelli precisava de alguém de Dourados para dar peso à chapa de Simone Tebet para o Senado. Nome de peso, de Dourados, por que não repetir a fórmula? Mesmo estrilando, lá foi Celsão, de novo, para o “sacrifício”. Sempre lembrado, por razões mais que óbvias, no antes, e, principalmente, no durante de todas as campanhas eleitorais, o bem-sucedido empresário fez bonito e entregou o que Simone Tebet precisava nas urnas. Depois, tal qual acontecera com Juvêncio, nem tchum!
Bem provável que, como gato escaldado, Dal Lago nem tenha esperado nada do padrinho político de Tebet, muito menos da filha de Ramez Tebet, que brilharia até mais que o pai não apenas na tribuna do Senado, mas também como a primeira presidenciável, de verdade (mais uma vez Soraya Thronick não conta), agora, como ministra do governo Lula. Desta vez, Celso Dal Lago chegou a acreditar que a promessa de André Puccinelli poderia ser cumprida por linhas transversas. É que, preso, e como vítima, o italiano insistiu para que Simone ocupasse sua vaga como candidata ao governo para barrar a reeleição de Reinaldo Azambuja, em 2018. Até tinha chances, mas “amarelou”.
Como esperança é a última que morre, Celsão não se desfez do terno comprado para a posse como senador em 2002 e conservado à base de muita naftalina. Eis que senão quando Simone Tebet vira candidata à Presidência da República. E a chance, finalmente, já que para uma campanha de tal envergadura, se levada a sério, o mínimo que a senadora deveria ter feito seria licenciar-se do cargo, para correr o Brasil. Tudo bem, não ela não era obrigada a fazer isso. Quando Celsão já pensava em se livrar do terno, vem o convite de Lula para Simone virar ministra, isto, logo após a eleição, ou seja, faltando, ainda dois meses para o encerramento do mandato. Mesmo que por tão curto período, era a chance de entrar para a história, de pregar na lapela do mesmo terno o pin que identifica os senadores. Um gesto de grandeza que faltou a Simone, que repetiu Juvêncio.
Na última quarta-feira Celso Dal Lago Rodrigues usou, enfim, o indefectível terno. Para seu velório e sepultamento. Foi-se o bonachão e mais requisitado dos beneméritos, o pai exemplar, o amigo de todas as horas, o grande empreendedor, um visionário do agronegócio, o habilidoso negociador político. Fica seu legado, sua lição, para que Dourados saia da inhaca política que vive desde a criação do MS, desde que o ex-prefeito Zé Elias, também recém-desencarnado, fez bonito nas urnas como candidato a governador do Estado, só perdendo na capital, num tempo em que o eleitorado do interior não tinha a força que tem hoje.

Celso Dal Lago, durante Convenção Nacional do PP, partido por ele presidido no MS
