A entrevista do deputado Dagoberto Nogueira no MS TV segunda edição desta quarta-feira (26/4) defendendo a aprovação do PL das Fake News, pelo Congresso Nacional, nos remete aos anos de chumbo da ditadura militar quando, como bem lembrou o parlamentar tucano, “nossos heróis, os jornalistas, foram presos, sumiram com muitos deles, porque propagavam a verdade”.
Difícil, nessas horas, não rebobinar a fita até aos tempos do valente e bom jornalismo a que se propôs o jornalista Theodorico Luiz Viegas, um desses idealistas e heroicos, que em 8 de março de 1968 fundou o jornal Folha de Dourados, para fazer frente ao pioneirismo do único periódico de circulação regular, o jornal O Progresso, fundado por outro idealista, o poeta e deputado federal Weimar Gonçalves Torres.
Dando, ainda, os primeiros passos na escrita, acumulando as funções de diagramador e impressor do jornal, acabei sendo o pivô de uma notícia que não resistiria ao crivo da maldita censura do governo militar – a que informava sobre a intenção do então governador José Fragelli de construir um presídio em Dourados, ao que Theodorico fez seu contraponto, dizendo que Dourados precisava de escolas, não de presídios. Redigido às pressas, o texto de nosso redator-chefe foi para a impressão, mas com a recomendação para que aguardássemos seu retorno à redação, para uma melhor reflexão. Ele sabia o risco que corria. Como se demorou, noite a dentro, num compromisso em Fátima do Sul, coloquei o jornal para rodar, com o malfadado texto. Ao chegar, foi a primeira coisa que perguntou. Como estava feito, apenas soltou um “seja o que Deus quiser”.
No dia seguinte, logo após o almoço, chega à redação do jornal o famoso Cabo Otávio (à época uma das autoridades mais temidas da cidade). Desembarcou de uma charrete com uma intimação do delegado de polícia, capitão PM Nelson Salomão Saigali, avisando que viera buscar Theodorico. Irreverente, o dono da Folha disse que sabia muito bem onde ficava a delegacia (hoje quartel Corpo de Bombeiros) e que iria em seu próprio carro (um velho pé-de-bode). Lá chegando, numa acirrada discussão sobre a lei de imprensa, jornalista e delegado foram às vias de fato. Theodorico foi preso e levado para o temido “onze” – o quartel do 11º Regimento de Cavalaria, em Ponta Porã, para onde eram enviados os presos políticos e contrabandistas famosos da época.
Não é a primeira vez que relato essa história, mas, por mais paradoxal que possa parecer, da mesma forma que as mentiras em forma de Fake News jorram pela internet, importante também que venham à tona reflexões como este episódio, principalmente para as novas gerações do jornalismo que insistem em dizer que viram o galo cantar, mas não sabem onde. E, para não ficarmos remoendo o passado, um exemplo clássico, um misto do que seria uma boa informação, mas que virou Fake News – a história da devolução de uma graninha aí para a saúde municipal pelo prefeito Alan Guedes que, se a grande maioria dos ditos “donos da verdade” fosse escarafunchar, como determina o catecismo da profissão, chegaria à conclusão de que não havia outra saída para o prefeito, a menos que incorresse em crime de responsabilidade pela incorreta aplicação do dinheiro das famigeradas emendas parlamentares.
O mais interessante nessa história é a insistência do radialista Marçal Filho, um dos maiores interessados na cadeira do próprio Alan, aproveitando a situação para tripudiar sobre a administração municipal, com meias-verdades, para dizer o mínimo. Aliás, Marçal Filho entende, mais que ninguém, dessa história de retorno-não-retorno de verbas para a saúde, com know how adquirido ainda em seu primeiro mandato como deputado federal-suplente, quando, por conta do misterioso atraso na liberação da grana de uma emenda de sua autoria, as obras, sabe-se lá por quê, ficaram paralisadas por vários anos.
É para coibir esse tipo de prática, de especialistas em propagar mentiras pelas redes sociais, que o Congresso vai votar semana que vem a PC das fake News. Como disse ontem o deputado Dagoberto Nogueira, “um projeto para penalizar as pessoas que estão propagando mentira, a falsidade, que enganam as pessoas”, faltando acrescentar, principalmente gente humilde e de boa-fé como a multidão de ouvintes da emissora de Marçal Filho.
Dagoberto Nogueira fez questão de dizer que a PEC das fake News é muito diferente de toda a discussão que se trava há anos sobre liberdade de imprensa:
“A liberdade de imprensa, nós tivemos um papel importante na época da ditadura. Quando nossos heróis, os jornalistas, muitos deles enfrentaram, através do rádio, dos jornais da televisão, muitos deles foram presos, sumiram com eles, porque propagavam a verdade, os fatos, aquilo que estava ocorrendo”.
Disse tudo e mais um pouco Dagoberto Nogueira. Até porque não se fazem mais jornalistas como antigamente. Que os colegas jornalistas e também aqueles que assim se intitulam, sem noção do que é um gancho ou um lead em um texto, ou os propagadores de maledicências e da cultura inútil nas redes sociais atentem para o tamanho da injustiça que podem estar cometendo. Quem sabe assim, tendo que se acertar com a Justiça, os “fakenewseiros” procurem algo de útil para fazer na vida.
