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sábado, maio 9, 2026

Para Walcyr, o Carrasco, Dourados é apenas “este fim do mundo”

Novelista global desdenha da cidade onde passou parte de sua infância, que inspirou Terra e Paixão

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Paguei o sapo. A ideia era esperar uma semana em frente da TV na expectativa de conferir as ditas tenras lembranças que o consagrado novelista Walcyr Carrasco tinha da terra de seu Marcelino, onde ele diz ter passado um período de sua infância, na casa de parentes. Mas não me aguentei, embora isso não seja sacrifício para um noveleiro de carteirinha do passado, que, cansado da cada vez mais oceânica falta de criatividade dos roteiristas globais abriu uma exceção para Pantanal, por razões óbvias e, pela temática atual, aguentou firme a Travessia, de Glória Perez, intrigante pela temática, mas uma merda como como enredo. O mesmo destino, pelo jeito, de Terra e Paixão.

A história, em si, parece ter sido inspirada em “conflitos agrários” da virada da década de 1950/60, envolvendo gente poderosa no período pós-instalação da CAND (Colônia Agrícola Nacional de Dourados), “cenário” da novela,  inclusive um conhecidíssimo político homônimo do personagem de Tony Ramos na trama global. E aí começam as incongruências de Carrasco, pois que os “conflitos” de antigamente não tinham nada a ver com as invasões de terras da atualidade, promovidas por movimentos como o MST, que parecem ser o foco da novela. Talvez aí, pelo que se viu até aqui, a trama tente reavivar a história, muito provavelmente por algum trauma do novelista ou de alguém de sua família. Mesmo assim, de forma muito subliminar, em que pese as cenas fortes do assassinato de Joel, pelo jeito o “comunista” da época, marido da protagonista Aline, cuja humilde residência foi, no mesmo episódio, incendiada pelos capangas de Antônio de La Selva. Nesse particular, apenas, a ficção imitando a realidade daqueles tempos tenebrosos.

A frustração dos douradenses fica por conta da total ausência de alguma imagem que identifique Dourados, ou Deodápolis, que seja, como a fictícia “Nova Primavera”. Nem a “Mão do Braz?”. Pior, para os irmãos Campina Verde, que tanto se gabaram nas redes sociais. Até agora, nenhum mercham que identifique a tão badalada Analu, a fazenda conquistada com tão caros e penosos recursos, que renderam alguns meses de cadeia para seus proprietários, talvez estando aí a razão da Globo em querer resgatar o alerta sempre inserido ao final de suas antigas produções, de que “esta é uma obra de ficção, qualquer sem semelhança com nomes, pessoas ou fatos da vida real terá sido mera coincidência”.

Frustração, aliás, que vai permanecer durante toda a novela, prometida para ser a mais longa da história da teledramaturgia global. É que de tão inverossímil – não fosse o alto nível das produções globais, podendo passar por um ato falho – nas placas de identificação de comércio e logradouros da cidade cenográfica do Projac, no Rio de Janeiro, foi preservado o nome original da novela Terra Vermelha, a única coisa que faria melhor lembrar a Dourados de outrora. Da atual, apenas o hercúleo esforço do elenco, mais evidente de consagrados atores, como os protagonistas Tony Ramos e Glória Pires, além de coadjuvantes como Tatá Wernerck e Débora Falabella tendo que “arrastar” o nosso tão característico erre.

Nem a famosa ZBM dos áureos tempos Carrasco está conseguindo traduzir. Prevendo isso, até cheguei até a me oferecer como “consultor”, enviando a ele um cartão de visitas por intermédio do filho do temido fazendeiro Antônio de La Selva (Tony Ramos), o Felipe (Jonnhy Massaro), com quem cruzei num supermercado em Dourados. Se Carrasco tivesse tido a humildade de me ouvir a “cândida” personagem de Suzana Vieira ficaria bem melhor no papel, por exemplo, de uma Baixinha Sapó, da Pechô, da tia Guilhermina ou de tantas outras donas de bordéis que fizeram história nos tempos da terra vermelha.

Desinformação – e, pior, desrespeito – maior, a menos que o trauma de Carrasco com Dourados seja tão grande que nem o analista de Bagé dê jeito, é passar a ideia de que a cidade que acolheu parte do elenco com tanto carinho é o fim do mundo. Sim, foi o que garantiu a vilã Irene, mulher de La Selva, personagem de Glória Pires, quando ficou sabendo que um italiano milionário que conheceu sua filha Petra (Débora Osório) pela internet vem passar uma temporada em “Nova Primavera”. Ela se espanta: “o que ele vem fazer neste fim de mundo?”.

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