Contrariando a lenda de que a Justiça Divina tarda, mas não falha, o bolsonarismo descobriu que ela também não negocia — e, quando precisa, faz um atalho. No capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 7, Allan Kardec lança uma pergunta que atravessou o século XIX e segue incômoda no XXI: quais são as consequências de um pensamento mau, ainda que nenhum efeito concreto se produza? O exemplo usado é o adultério, mas a resposta atribuída aos espíritos vai muito além da moral doméstica. Ela trata de intenção, disposição, desejo íntimo. Em síntese: o mal começa no pensamento, e o fato de ele não se consumar não absolve quem o concebeu.
Troque-se o adultério pelo punhal verde e amarelo. Troque-se o desejo clandestino pela trama golpista, ensaiada em discursos cifrados, lives inflamadas, reuniões mal explicadas e bravatas públicas. O encaixe é imediato, quase didático.
Durante meses, o Brasil ouviu que “não houve golpe”, que “foi só retórica”, que “não se consumou nada”. Como se a frustração do plano anulasse sua gravidade. Como se a democracia tivesse obrigação de agradecer por não ter sido assassinada — apenas esfaqueada na intenção.
Kardec não compraria esse argumento. Para ele, que apenas codifica os ensinamentos de Jesus Cristo, o pensamento mau pesa porque revela o que se faria se as circunstâncias fossem favoráveis. No caso de quem ocupa — ou ocupou — o centro do poder, isso deixa de ser abstração filosófica e vira risco concreto.
Talvez por isso a Justiça não tenha esperado o último ato. Fez um atalho.
Jair Bolsonaro e sua caterva não foram alcançados apenas pelo que fizeram, mas pelo que tentaram, desejaram, planejaram e estimularam. E, simbolicamente, nada resume melhor esse espírito do que a cena grotesca da tentativa frustrada de violação da tornozeleira eletrônica. Um gesto pequeno, tosco, mas revelador. Quem não respeita nem a própria vigilância judicial respeitaria o resultado de uma eleição?
Mesmo assim, há quem grite blasfêmia. O deputado Rodolfo Nogueira, fracassado como guardião de tornozeleira, mesmo assim uma das vozes mais estridentes do Congresso contra a PF e o STF, resolveu vestir a toga do martírio político. Repete, como mantra, que “eleição sem Bolsonaro é golpe”, ignorando a lei, os fatos e a própria tentativa de fuga do mito que jura defender. Ignora o clima de confraternização universal de fim de ano. Em vez de boas festa, um arrogante “eu acredito”, nas redes sociais e num outdoor entre Bolsonaros, pai e filho, com o juramento de “varrer o PT” do mapa do Brasil em 2026.
É aqui que a blasfêmia deixa de ser metáfora. Chamar a aplicação da lei de golpe é negar não apenas o STF ou a PF, mas o próprio princípio de responsabilidade. É transformar um político em entidade sagrada, acima da Constituição, ungido por uma fé seletiva que absolve tudo e cobra nada.
Curiosamente, esse discurso vem embalado por uma moral religiosa rígida, brandida com fervor — sobretudo quando convém atacar adversários. Mas, como lembra Kardec, o pensamento mau reiterado também conta. Não porque já produziu o pior efeito, mas porque insiste em corroer, desacreditar, preparar o terreno para a próxima ruptura, como o ameaçador discurso do Gordinho do Bolsonaro.
Menos mal que a justiça dos homens, que costuma falhar por cálculos e covardia, desta vez não falhou. Não esperou o estrago. Interrompeu a intenção. Um atalho, como se vê, da Justiça Divina.
