Na política mato-grossulense há uma síndrome conhecida e temida: a do cavalo paraguaio, aquele que larga na frente, empolga na primeira curva e muitas vezes nem termina a corrida. É justamente esse risco que parece orientar a postura cautelosa de Gerson Claro, presidente da Assembleia Legislativa, diante das especulações que o colocam como principal opção do PP para o Senado. Diferentemente de pretensos concorrentes que tentaram montar nesse cavalo antes da hora, erraram o estribo e já começam a comer poeira, o deputado prefere disputar tempo — e não apenas posição.
Apesar dos apelos de lideranças políticas e sociais, e da recorrente menção de seu nome como principal opção do PP para a disputa do Senado, Gerson Claro faz questão de não tratar a hipótese como fato consumado. Não por falsa modéstia, mas por método. Em suas declarações, o deputado repete um mantra que, longe de ser retórico, é estratégico: ninguém decide sozinho.
Ao afirmar que a palavra final cabe ao partido, à militância e à sociedade, Gerson Claro sinaliza duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, que não está em campanha antecipada. Segundo, que compreende — e respeita — a liturgia interna de uma legenda que, historicamente, valoriza decisões coletivas e lideranças consolidadas. “Sou um afiliado, como qualquer outro”, diz. Na política, essa frase raramente é literal. Aqui, é um recado.
O presidente da Alems fala a partir de uma posição confortável. Sua gestão à frente do Parlamento estadual lhe garantiu um ativo raro: equilíbrio. Embora seja o principal alicerce da base governista entre os deputados, tornou-se também ponto de mediação entre situação e oposição, administrando disputas, vaidades e divergências sem transformar a Casa em arena permanente de conflito.
Esse papel — discreto, mas decisivo — produziu ganhos institucionais evidentes. A Assembleia manteve sua autonomia, deu sustentação política ao governo e ajudou a viabilizar agendas estruturantes, sem abdicar do debate nem da fiscalização. Trata-se de uma parceria republicana, não submissa, algo cada vez mais raro no ambiente político nacional.
Ao citar conquistas como os investimentos dentro do modelo municipalista de gestão, o avanço do saneamento básico, a consolidação de parcerias público-privadas na saúde e a aprovação da Lei do Pantanal, Gerson Claro reforça um ponto central de sua narrativa: governar e legislar não é produzir confronto permanente, mas resultado concreto. Para ele, embates firmes não enfraquecem o Parlamento quando são mediados por respeito institucional e disposição ao consenso.
Quando provocado sobre a conciliação entre liturgia legislativa e demandas eleitorais, o deputado não se esquiva, mas também não dramatiza. Harmonia, diz, não é unanimidade. É respeito às diferenças. A frase, aparentemente protocolar, ganha peso quando se observa o contexto: uma Assembleia plural, com base governista ampla, oposição atuante e parlamentares independentes que, longe de atrapalhar, qualificam o debate.
E o Senado? A resposta vem sem sela nem esporas. Gerson Claro reconhece a discussão, menciona a federação partidária e lideranças como a senadora Tereza Cristina, mas evita qualquer gesto que soe como arrancada individual. Disputas majoritárias, afirma, não se constroem no improviso nem na vaidade, mas na construção coletiva de um projeto político consistente.
Traduzindo do dialeto político: quem se antecipa demais costuma tropeçar no próprio entusiasmo. Quem espera, observa e constrói, amplia suas chances.
Se vai ou não “montar no cavalo” rumo ao Senado em 2026, o tempo dirá. Por ora, Gerson Claro parece mais interessado em cuidar do estábulo institucional do que em correr antes da largada. Na política, isso costuma ser sinal de quem entende que cargos passam — mas reputações ficam.
