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terça-feira, janeiro 27, 2026

Retrospectiva 3

A linguagem como arma, escudo e método de poder

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Se a polêmica em torno da IA expôs o medo do jornalismo de perder o controle da linguagem, a política tratou de mostrar o outro lado do problema: o que acontece quando a linguagem vira arma, escudo ou cortina de fumaça.

Nesse ponto, não há como escapar dos dois personagens centrais do período recente: Lula e Bolsonaro. Não apenas como indivíduos, mas como regimes discursivos opostos — ambos capazes de moldar o debate público, cada um à sua maneira, com efeitos colaterais profundos.

Bolsonaro fez da linguagem um campo de batalha permanente. Grito, confronto, provocação calculada, simplificação agressiva. Não se tratava de convencer, mas de mobilizar pelo conflito. O ruído constante não era descontrole: era método. Ao transformar a política em espetáculo verbal contínuo, ele deslocou o debate do conteúdo para a reação. O importante nunca foi o que se dizia, mas o que se incendiava em seguida.

Esse modelo deixou herança. Mesmo fora do poder, o bolsonarismo segue operando como máquina de ruído, contaminando o ambiente político e midiático. Cada frase é isca. Cada gesto é disputa simbólica. O silêncio, nesse campo, é interpretado como fraqueza — e a resposta moderada, como traição.

Lula, por sua vez, opera no registro oposto. A palavra como gesto calculado, o silêncio como instrumento, a ambiguidade como espaço de manobra. Onde Bolsonaro tensionava pelo excesso, Lula administra pelo controle. Não grita. Não improvisa. Pesa cada frase como quem conhece o valor — e o risco — da linguagem institucional.

Essa diferença não é apenas de estilo. É estrutural. Lula governa com base na mediação. Bolsonaro mobiliza pela ruptura. Um aposta na reconstrução do pacto simbólico; o outro, na sua implosão. O efeito disso sobre o jornalismo é direto: como cobrir o silêncio sem reproduzir o ruído? Como analisar o ruído sem amplificá-lo?

É nesse vácuo que a política local e regional se move. Em Mato Grosso do Sul, figuras como Reinaldo Azambuja entenderam cedo o valor do silêncio estratégico. Pouco dito, muito negociado. A palavra aparece apenas quando já está esvaziada de conflito. Não é ausência de discurso — é gestão da opacidade.

Já Marçal Filho, radialista que virou prefeito, encarna uma contradição mais incômoda. Ele conhece o valor da palavra, mas governa sob a pressão do gesto. Cada frase sua carrega o peso de quem sabe como a linguagem pode ser usada — e mal usada. Aqui, o jornalismo encontra um espelho desconfortável: quando o repórter vira gestor, o que sobra da crítica?

E há ainda as permanências. Zé Teixeira, decano eterno, representa o tempo lento da política que atravessa governos, modas e crises discursivas. Seu discurso não busca viralizar. Busca permanecer. Em tempos de ruído e algoritmo, isso também é uma forma de poder.

Dourados, nesse cenário, surge como palco recorrente. Não apenas pelos personagens, mas pelo choque entre linguagens: a política nacional reverberando no cotidiano, o discurso ideológico colidindo com a gestão prática, o jornalismo tentando nomear o que escapa.

É aqui que a série encontra seu ponto de contato mais direto com a realidade concreta. A IAIA, a metalinguagem, a polêmica editorial não existem no vácuo. Elas atravessam um ambiente político onde a palavra decide, omite, inflama ou apazigua. Onde cada silêncio é interpretado. Onde cada ruído vira manchete.

Se no Capítulo 2 o incômodo falou mais alto que as respostas, neste capítulo a constatação é outra: a política nunca deixou de disputar a linguagem — apenas mudou as regras do jogo.

E o jornalismo, mais uma vez, se vê diante da escolha fundamental: ser caixa de ressonância do ruído, ou instrumento crítico num terreno cada vez mais escorregadio.

As próximas pérolas nascem exatamente daí.

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