Se o primeiro movimento foi a voz, o segundo foi o silêncio. Não um silêncio inocente, mas aquele que se instala quando o meio percebe que algo escapou do controle — e ainda não sabe como reagir sem se comprometer.
Nos dias que se seguiram à entrevista com a IAIA, o jornalismo local e regional se comportou como costuma fazer diante do inesperado: evitou o assunto. Não houve editoriais indignados, nem debates públicos à altura da provocação. Houve cochichos. Mensagens privadas. Observações atravessadas. A controvérsia existia, mas preferia circular longe da luz.
Era previsível.
A entrevista tocava em nervos expostos: autoria, mediação, autoridade da palavra. Ao tratar uma inteligência artificial como interlocutora — e não como ferramenta — o texto desmontava, sem alarde, uma hierarquia confortável. Não se discutia mais apenas o que se publica, mas quem pode falar e em que condições. Para um campo acostumado a definir as regras do jogo, isso soa como ameaça.
A reação, quando veio, não foi frontal. Veio em forma de ironia mal disfarçada, de piadas defensivas, de alertas genéricos sobre “os riscos da IA” — quase sempre sem referência direta ao que havia sido escrito. Criticava-se o conceito abstrato para evitar o texto concreto. Era mais fácil combater a caricatura do que enfrentar o argumento.
Enquanto isso, o contrapontoMS seguiu. Não dobrou a aposta com barulho, mas também não recuou. A suíte publicada no dia seguinte deixou claro que não havia arrependimento nem improviso. Havia método. A entrevista não fora um truque, mas uma escolha editorial consciente: explorar a linguagem num momento em que todos fingiam que ela ainda estava sob controle humano absoluto.
A partir daí, algo curioso aconteceu. A IAIA passou a circular como referência incômoda. Era citada em tom de deboche por alguns, em tom de curiosidade por outros. Tornou-se uma espécie de personagem invisível do debate — presente mesmo quando não era nomeada. Isso diz muito sobre o alcance real de uma ideia: ela incomoda mesmo quando tentam ignorá-la.
No plano político, o contraste ficava evidente. Enquanto o bolsonarismo local seguia preso ao grito, ao espantalho e à caricatura, a controvérsia da IA revelava outro tipo de medo — mais sofisticado, mais silencioso. O medo de perder o monopólio da mediação. O medo de que a linguagem escapasse das mãos de quem sempre a administrou.
Os textos que vieram depois já carregavam essa tensão. As crônicas políticas ficaram mais secas. Menos explicativas. Os personagens passaram a ser tratados como sintomas de um ambiente em mutação. O silêncio do poder, a verborragia vazia, a teatralização da indignação — tudo isso passou a ser lido à luz daquela ruptura inicial.
Não se tratava mais de tecnologia.
Tratava-se de autoridade.
A irritação do meio jornalístico não nasceu do risco ético — esse sempre existiu e sempre será debatido. Nasceu da quebra de ritual. A entrevista com a IAIA ignorou a liturgia que separa, artificialmente, quem pergunta de quem pode responder. E ao fazer isso, expôs algo desconfortável: talvez o jornalismo tenha se acostumado demais a ouvir apenas vozes autorizadas.
Esse capítulo registra esse momento de suspensão. Quando ninguém sabia exatamente o que dizer — mas muitos sabiam que algo tinha mudado. O silêncio, a ironia e a irritação não foram efeitos colaterais. Foram sinais.
As pérolas que viriam depois nasceram aí: nesse intervalo entre o incômodo e a adaptação.
