Foi no dia em que o governador Eduardo Riedel lambuzou o bigode “tocando gaita” com uma ripa de “costelão”, ali na Picadinha, para entregar um asfalto que nem os deuses do tempo de seu Abílio Ferreira e Albano José de Almeida juravam ver, que a política mato-grossulense ganhou uma imagem definitiva do seu momento atual. Não era folclore. Era método. E, sobretudo, era mensagem.
A cena parecia pequena demais para tanto simbolismo. Um evento local, uma estrada improvável, expressões que só fazem sentido para quem conhece o chão, o cheiro e o humor do lugar. Mas ali estava condensado um governo que decidiu apostar menos no discurso grandiloquente e mais naquilo que, na política do interior, sempre contou mais do que qualquer PowerPoint: a palavra empenhada. O velho e desacreditado fio do bigode, ressuscitado sem cerimônia, como método oficial de governo.
Eduardo Riedel chegou ao comando do Estado sob o peso inevitável do espólio azambujista. Não apenas como herdeiro político, mas como gestor pressionado a provar que não seria apenas continuação automática. A expectativa era de transição técnica, prudente, quase silenciosa. O que se viu foi algo mais complexo: um governo que aprendeu rápido a operar na transversalidade, dialogando com campos distintos, sem romper pontes e sem se deixar capturar integralmente por nenhuma trincheira.
Essa transversalidade não é retórica. Ela se materializa em gestos, alianças e escolhas que desafiam os manuais ideológicos. Riedel governa com apoio de setores que vão do agronegócio tradicional a áreas sensíveis ao planejamento de longo prazo, passando por uma relação institucional fluida com Brasília. O símbolo mais acabado disso atende pelo nome de Simone Tebet, ministra do Planejamento, ponte direta com o governo Lula e peça-chave na engrenagem que mantém Mato Grosso do Sul integrado às grandes decisões nacionais.
Enquanto o debate político nacional segue refém do ruído, o governo Riedel apostou naquilo que quase ninguém celebra, mas todo mundo sente: entrega. Infraestrutura, logística, previsibilidade. A política do possível, aplicada sem pedir desculpa por não ser épica. É nesse terreno que o governador construiu um dos índices de aprovação mais altos do país, não por carisma ou confronto, mas por uma combinação rara de pragmatismo, técnica e leitura correta do tempo histórico.
Esse tempo histórico, aliás, não espera. Enquanto o trem da tão decantada estrada de ferro ainda não volta apitar, o Mato Grosso do Sul já se move em outra escala. A Rota Bioceânica avança cruzando fronteiras, encurtando oceanos e reposicionando o Estado no tabuleiro global. Não é promessa. É realidade em curso. Por ela não seguem apenas o gado e a soja, velhos conhecidos da balança comercial. Segue também a celulose, produto que transformou o MS no maior produtor mundial, redefinindo o perfil econômico e industrial do Estado.
Esse deslocamento silencioso talvez seja o traço mais subestimado do atual governo. Enquanto o debate público se ocupa de narrativas, Mato Grosso do Sul consolida uma posição estratégica no comércio internacional, conectando-se ao Pacífico e ao mercado asiático com uma naturalidade que contrasta com décadas de isolamento logístico. É política pública feita sem espetáculo, mas com efeito duradouro.
Nada disso elimina tensões. O fio do bigode cobra caro. Governar pela palavra exige coerência constante. A transversalidade incomoda os puristas. A relação com o espólio azambujista segue como sombra e herança. A reeleição, embora viável, não é automática. Mas há algo que diferencia este momento: o governo parece saber exatamente onde pisa.
Se os capítulos anteriores desta retrospectiva mostraram um jornalismo em disputa com a linguagem, a tecnologia e o ruído, este capítulo mostra o outro lado do espelho: a política que sobrevive justamente porque entendeu que falar menos e entregar mais também é uma forma de comunicação. O silêncio, aqui, não é omissão. É cálculo. A palavra, quando vem, vem pesada. Como fio de bigode sujo de costelão.
No fim das contas, a imagem da Picadinha diz mais do que qualquer discurso de posse. Um governador que se permite aquele gesto não está apenas inaugurando uma estrada. Está sinalizando pertencimento, método e compromisso. Está dizendo, sem dizer, que entende onde está e para onde quer levar o Estado.
Missão cumprida?
2026 dirá.
