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terça-feira, janeiro 27, 2026

Gabeira alertou sobre agonia do rio São Francisco

'Ele está doente, anêmico, e vamos fazer uma transfusão de sangue', escreveu o jornalista

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O jornalista Fernando Gabeira visitou a nascente do São Francisco e encontrou um rio fragilizado. Em dezembro de 2000, ele escreveu na Folha de S.Paulo sobre o projeto de transposição que o governo preparava: “O Velho Chico é um rio doente, anêmico, comparado com sua pujança anterior. E o que vamos fazer é uma transfusão de sangue”.

A visita à serra da Canastra, em Minas Gerais, revelou a fragilidade do “rio da unidade nacional”. “A impressão que ele nos dá, descendo cristalino pela montanha, é de um frágil filete de água que precisa de muita ajuda para cruzar todo o país”, observou.

Gabeira citou o exemplo do rio das Velhas, afluente que agonizava. “Dizem que no museu de Sabará há uma âncora de quase dois metros, que era utilizada no antigo rio das Velhas. Hoje em dia é possível atravessá-lo com água pelo joelho”, escreveu. A história incluía alertas sobre desastres ecológicos de transposições, como o mar de Aral na Rússia.

O colunista via um aspecto positivo no debate: forçar o Brasil a pensar sobre escassez hídrica. “Poucos sabem que 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com escassez de água. Nos próximos 25 anos, se nada for mudado, dois entre três habitantes do planeta enfrentarão a escassez”, alertou. O São Francisco, ironizava, precisava ele próprio de “uma transfusão, talvez de um afluente do Tocantins, o rio do Sono”.

Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.

São Francisco, um rio da polêmica nacional (11/12/2000)

Todos ouvimos falar do São Francisco na escola. É o rio da unidade nacional, tão castigado, coitadinho. Castro Alves, o poeta, falava de suas águas cristalinas e o chamava de Nilo brasileiro.O Velho Chico deverá voltar ao noticiário este ano.

O governo parece determinado a transplantá-lo, na altura da cidade de Cabrobó, em Pernambuco, para atender às regiões mais secas do Nordeste. A obra deve custar R$ 3 bilhões e já existe até dinheiro no orçamento para realizar o trabalho. Como para tudo no Brasil, existe uma comissão onde se discute o problema.

Também como em muitos outros casos, participo dessa comissão, não só para debater a transposição, mas, também, na esperança de conhecer melhor esse rio, simbolicamente tão importante para nós.

O primeiro passo foi conhecer a nascente na serra da Canastra, em Minas Gerais. O rio nasce no alto do morro, e o prefeito nos esperava com a mesinha com toalha branca, café e o famoso queijo da Canastra, um queijo-de-minas mais duro, ou mais curado, como se diz por lá.

Não dá para imaginar um rio soberbo, com águas turvas que descem lentas e peregrinas, como nos versos de Castro Alves.

A impressão que ele nos dá, descendo cristalino pela montanha, é de um frágil filete de água que precisa de muita ajuda para cruzar todo o país, abastecendo famílias, irrigando campos.

O local onde nasce o São Francisco é um parque nacional controlado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). No entanto os fiscais, no momento em que o visitamos, não tinham dinheiro para a gasolina dos carros e, portanto, não podiam controlar toda a área, que começa a ser visitada por gente que quer conhecer as origens do São Francisco e fazer um piquenique às suas margens.

Se você desce um pouco com o rio e se mantém ainda nos limites de Minas Gerais, é possível perceber como ele está ameaçado a médio prazo.

O projeto Manuelzão, dirigido por Apolo Heringer, um antigo militante da esquerda brasileira, tenta, por exemplo, recuperar o rio das Velhas, um afluente que também foi majestoso, mas que hoje está agonizando.

Dizem que no museu de Sabará há uma âncora de quase dois metros, que era utilizada no antigo rio das Velhas. Hoje em dia é possível atravessá-lo com água pelo joelho.

São indícios de que, visto no conjunto, o rio São Francisco é um rio doente, anêmico, comparado com sua pujança anterior. E o que vamos fazer é uma transfusão de sangue.

Esse caminho, de transpor o rio, teria mais sentido no bojo nacional para recuperá-lo.

A história moderna conta com algumas transposições bem-sucedidas, mas também com alguns desastres ecológicos que comprometem a racionalidade no século 20, como é o caso do mar de Aral, na Rússia.

Escassez de água

Há um aspecto interessante no debate sobre o São Francisco. Mesmo anêmico e ameaçado, ele pode levar o Brasil a pensar num problema que nunca existiu para nós: o problema da água.

Poucos sabem que 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com escassez de água. Nos próximos 25 anos, se nada for mudado, dois entre três habitantes do planeta enfrentarão a escassez.

Imaginem a quantidade de conflitos, o sofrimento que pessoas e animais podem enfrentar nos próximos anos.

Mesmo no Brasil, onde temos muita água, ela está concentrada mais para o norte. Milhões de brasileiros ainda vivem com uma cota de água menor do que a desejável para manter uma existência digna.

Equacionar adequadamente os problemas de abastecimento de água é um grande desafio.

O Velho Chico pode impulsionar o debate sobre a questão, mas dificilmente pode resolver o problema. Ele mesmo, coitado, está precisando de uma transfusão, talvez de um afluente do Tocantins, o rio do Sono.

O debate sobre o São Francisco vem desde o século passado. O debate sobre a escassez de água no planeta é mais recente. Ambos dariam para preencher toneladas de papel. No momento, é importante conhecer o rio São Francisco, antes que ele mude de leito.

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