E o século avança — um quarto dele já foi consumido, constato. E eu, que sou do século passado, o que esperar deste novo século que parece ter pressa de chegar ao fim do caminho? Até onde ele vai me permitir caminhar?
Entre votos trocados entre amigos e conversas, neste fim e começo de ano, tudo foi direcionado ao futuro. Um dos amigos tem Alzheimer. Ele tem consciência da doença e esperança de que ela não o atrapalhe muito na vida, nem evolua rapidamente. É uma pessoa de fé. Pergunto-me até que ponto essa fé o ajuda. Até que ponto ela o sustenta na travessia de caminhos difíceis?
Outra amiga não teve a mesma sorte. A mesma doença evoluiu de tal forma que ela se perdeu em um lugar ao qual já não temos acesso. Uma evolução fulgurante: em um ou dois anos, ela já não reconhece nem os filhos. Para o companheiro, que esperava as aposentadorias para viajar como sempre fizeram, o estado da mulher tornou-se, no mínimo, complicado.
O período de férias acabou. Agora é voltar para casa, sacudir a poeira e começar a desenvolver as ações do ano novo. Projetos já encaminhados, outros ainda por criar. É preciso andar logo, enquanto há tempo. Enquanto o corpo e a mente conseguem acompanhar.
Chegará um momento em que as grandes distâncias serão interrompidas. Portanto, é preciso aproveitar antes. Aceitar que momentos difíceis virão e que devemos estar preparados para eles. Agora, enquanto ainda somos válidos, pensar naqueles que não são, nos que precisam de nós agora — antes que ocupemos o lugar deles.
Penso na finitude, sobretudo de pessoas inteligentes, que falam tantas línguas, enquanto eu sempre tive dificuldades com a minha — ainda que tenha aprendido a dominá-la — e depois uma segunda, que aprimoro todos os dias. Tantos conhecimentos adquiridos com tanto trabalho… e tudo isso desaparecer com a pessoa.
Só não quero viver como quem carrega dificuldades, cansada da vida. Gostaria de partir durante a noite, em um sono que continue e me leve a outras aventuras, depois desta que acabamos de viver.
Um belo ano de 2026 para todos!
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
