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terça-feira, janeiro 27, 2026

Retrospectiva: IA, ghostwriters e o jurássico do Jaguapiru

Entre a histeria moral sobre inteligência artificial e a velha terceirização do verbo, uma crônica sobre jornalismo, poder e sobrevivência — com ironia, memória e sandálias certas

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Não querendo ser chato, logo no primeiro dia útil do ano, mas já “o sendo”, como diz meu amigo André Puccinelli, a retrospectiva 2025 ancorada nos textos produzidos em parceria com a IA despertou uma inesperada histeria moral. Nos quatro textos da série publicada na virada do ano houve questionamentos legítimos, claro. Mas houve também aquela velha hipocrisia histórica, sempre pronta a reaparecer quando a escrita muda de ferramenta, mas não de método. Afinal, se existe algo que a humanidade sempre fez foi pensar junto, escrever junto — e, não raro, falar pelos outros.

Os grandes homens da História raramente falaram sozinhos. Reis, papas, presidentes, estadistas. Todos cercados por escribas, assessores, redatores invisíveis. O nome moderno é ghostwriter. O antigo era simplesmente “quem sabia escrever”. Nunca foi visto como trapaça. Era método.

A novidade agora é que o escriba não fuma, não pede aumento, não entra em greve e não falta na segunda-feira. Chama-se IA. E isso parece incomodar mais do que deveria.

Talvez porque, pela primeira vez, essa ferramenta não esteja restrita aos palácios, aos gabinetes refrigerados ou às fundações bem financiadas. Ela chegou também ao Jaguapiru, aos jurássicos do teclado, aos que têm 55 de janela, coluna gasta e nenhuma aposentadoria digna para contar história.

E aqui falo de mim, sem rodeios.

Trabalhei tanto escrevendo — escrevendo, escrevendo, escrevendo — que não tive tempo de cuidar dos meus direitos trabalhistas. O que recebo do INSS não paga a farmácia no fim do mês. Não é força de expressão. É cálculo simples. A diferença entre o remédio e o boleto.

Então me expliquem, com toda a solenidade moral que o tema costuma exigir: por que um presidente pode discursar mundo afora com texto lapidado por assessores brilhantes, mas um escrevinhador de cafundós de judas não pode recorrer à IA para organizar ideias, afiar argumentos ou simplesmente continuar escrevendo?

O exemplo é didático e nacional. Lula. Quando fala sem TP, tropeça. É humano. Quando aceita o texto bem escrito, vira estadista global. Ninguém o acusa de fraude intelectual. Ao contrário: chamam de liderança, maturidade, inteligência política. O desastre oral é compensado pela humildade de reconhecer limites.

E está tudo bem. Aliás, sempre esteve. Só nunca foi chamado de pecado tecnológico quando o redator usava gravata.

A IAIA — chamemos assim, com certa intimidade — não escreve sozinha. Ela responde, organiza, sugere. Quem decide o tom, a tese, a ironia, a malícia e o ponto final ainda é o insubordinado do jornalismo do MS. Um jurássico do Jaguapiru, começando 2026 de sandálias Havaianas do SCCP — para os íntimos, o Timão, o Coringão — porque ninguém é de ferro, nem de mármore.

Usar IA, pois, não é trair o verbo. É não abandonar a escrita quando o corpo já cobra a conta.

E agora o incômodo final, para abrir o ano e os comentários: se político pode usar ghostwriter, marqueteiro, teleprompter e até filtro de Instagram para parecer melhor do que é, por que justamente quem vive do verbo deveria escrever com uma mão só — e a outra segurando a receita da farmácia?

Talvez o medo não seja da inteligência artificial. Talvez seja da inteligência democratizada. E isso, convenhamos, sempre assustou mais do que qualquer máquina.

PS.
Para quem chegou até aqui com cara de espanto ou fingida indignação moral, este texto é apenas um pós-escrito da retrospectiva. Um adendo tardio, quase um rodapé existencial.

E também um aviso: este é o primeiro movimento de uma série sobre IA, jornalismo, poder e sobrevivência. Não sobrevivência tecnológica de palestra motivacional, mas aquela bem concreta — do ofício, do verbo e da dignidade possível para quem passou a vida escrevendo enquanto outros assinavam.

Se a inteligência artificial incomoda, talvez não seja por ser artificial. Talvez seja por expor, sem pedir licença, o quanto a inteligência sempre foi terceirizada — só que agora mudou de endereço.

Sigamos. Com ironia, método e, se der, a farmácia paga no fim do mês.

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