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terça-feira, janeiro 27, 2026

Com o sarrafo de Marçal subindo, Dourados entra de vez no jogo da sucessão de Riedel e do Senado

A força política do prefeito de Dourados reposiciona a cidade no centro das articulações pela reeleição do governador e pelas duas vagas ao Senado

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A tentativa do prefeito Marçal Filho de transformar o velho discurso de “elevar o nível” em método administrativo só parece repetitiva quando lida fora do contexto político maior. Inserida no tabuleiro certo, ela revela algo bem mais relevante: Dourados deixou de ser coadjuvante e passou a ser mesa de negociação. E, numa eleição majoritária, isso muda tudo.

É que todo começo de ano é a velha ladainha de subir o sarrafo, elevar o nível, qualificar o debate. A frase é bonita, rende manchete e costuma ser pronunciada por quem, na prática, prefere baixar a régua e disputar quem faz mais barulho. Mas quando esse método funciona, incomoda, especialmente quem apostava no fracasso precoce da gestão.

Com a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, politicamente fragilizada, isolada e sem agenda positiva, Marçal assume, por gravidade, o posto de maior liderança municipal em exercício no Mato Grosso do Sul. Não por retórica, mas por controle de máquina, capilaridade eleitoral e algo cada vez mais raro na política: prefeitura funcionando.

Esse dado é decisivo num ano em que Eduardo Riedel busca a reeleição e em que duas vagas ao Senado estarão em disputa. Onde antes havia apenas liturgia institucional, agora há fila, cochicho, cafezinho e agenda disputada. O prefeito da segunda maior cidade do Estado virou ativo eleitoral, desses que ninguém admite publicamente, mas todo mundo quer por perto.

As entregas da prefeitura não caíram do céu nem brotaram de súbito senso de iluminação coletiva. A mudança da água para o vinho tem uma razão de ser: a sintonia silenciosa com o governador Eduardo Riedel. Nada de juras públicas, nada de fotos excessivas. É parceria de quem entende que eleição se constrói antes, com obra concluída e convênio pago, não com postagens carregadas de ódio, com espírito de vingança e indignação.

Some-se a isso um detalhe que muitos fingem ignorar: Marçal conhece Brasília como poucos. Quatro mandatos como deputado federal ensinaram que orçamento não se pede, se disputa. Que emenda parlamentar não se implora, se conquista. Saber a porta certa, o nome correto e o momento exato vale mais do que discurso moralista. Essa experiência hoje faz diferença concreta em Dourados.

Reduzir, pois, Marçal a mero operador técnico é erro de análise. Apesar do estilo introspectivo, econômico nas palavras no contato pessoal, ele é um popstar político fora do script. Ídolo das “secretárias do lar”, dono de uma intimidade rara com o microfone, fala sem parecer ensaiado — mesmo quando tudo é fruto de anos de treino. Não lacra, não grita, não performa. Apenas ocupa o espaço. E, em política, isso costuma ser devastador para os adversários.

Resultado previsível: onde há entrega, forma-se fila. Já em 2025, praticamente todos os pré-candidatos incluíram Dourados em suas agendas. Não por afinidade ideológica, mas por necessidade eleitoral. Não por amor, mas por cálculo frio.

O senador Nelsinho Trad entendeu isso cedo. Operador experiente no Congresso, especialista em transformar emenda parlamentar em obra com placa e solenidade, tornou-se um dos principais provedores de recursos para Dourados. Marçal, que deve — e sabe que deve — parte expressiva das entregas a essa parceria, conhece o peso político dessa conta. E conta, em política, sempre vence eleição.

Com Eduardo Riedel mantém a aliança sem ruído. Já com Reinaldo Azambuja, outrora dono do tabuleiro, ocupa hoje um espaço mais protocolar. Não atrapalha, mas também não comanda. Aos poucos, o cavalo paraguaio em primeiro plano no binóculo, largando forte no discurso, parece perder fôlego, pelas escolhas equivocadas, na hora errada, conforme a reta final se aproxima.

No meio desse rearranjo surge Vander Loubet, deputado federal do PT, pré-candidato ao Senado e elo direto de Marçal com o governo Lula. Não é detalhe menor. A tradição eleitoral brasileira é clara: quando o presidenciável vence, costuma puxar consigo pelo menos um senador — como Bolsonaro fez com a então inexpressiva Soraya Thronicke — e, agora, o presidenciável tem nome, partido e caneta. Lula não disputa apenas a reeleição; disputa também a formação de uma bancada aliada no Senado. Vander aparece, assim, menos como aventureiro eleitoral e mais como peça funcional de um projeto nacional que, historicamente, sabe transformar voto presidencial em mandato parlamentar.

Correndo por fora, mas amparada por uma mística própria, está a vice-prefeita Gianni Nogueira, do PL. Como já se escreveu por aqui, sua estratégia eleitoral dispensa grandes estruturas partidárias: bastaria montar uma tenda com púlpito na calçada da Polícia Federal, em Brasília, onde o mito cumpre pena. Com orações diárias, louvores e transmissão ao vivo, há potencial suficiente para arrebanhar o gado pela fé — e, de quebra, ainda tentar devolver o marido, o “gordinho do Bolsonaro”, o deputado Rodolfo Nogueira, ao Congresso Nacional. Em tempos de política emocional, subestimar esse tipo de capital simbólico costuma ser erro caro.

Subir o sarrafo, portanto, não é soberba nem exibicionismo. É leitura de conjuntura. É entender que política não se faz apenas com discurso bonito, mas com posição estratégica no tabuleiro. Enquanto alguns ainda discutem se a barra está alta demais, outros já perceberam que o problema nunca foi a altura — é não ter perna, preparo ou coragem para o salto.

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