O prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro, gosta de se apresentar como “o prefeito mais louco do Brasil”. É um personagem cuidadosamente cultivado nas redes sociais, onde a caricatura rende likes, aplausos fáceis e um verniz de autenticidade bruta, desses que confundem grosseria com coragem. O problema começa quando a loucura deixa o discurso e passa a aparecer no Portal da Transparência.
Enquanto posa de outsider antissistema, o prefeito resolveu tratar decisões judiciais como mera sugestão. Ignorou liminar, desprezou acórdão, passou por cima de desembargadores e, no fim das contas, fez o que lhe pareceu mais razoável: definiu sozinho quanto acha que merece ganhar.
A Justiça determinou que o salário deveria cair de R$ 35 mil para R$ 19.904, suspendendo um reajuste de 75%. Ferro ouviu, fingiu concordar e seguiu recebendo. Primeiro manteve os R$ 35 mil. Depois, em gesto magnânimo consigo mesmo, reduziu para cerca de R$ 25 mil — ainda 25% acima do teto imposto judicialmente. Em dezembro, a conta fechou bonito: mais de R$ 50 mil somando salário e 13º.
É um tipo peculiar de respeito às instituições. Em vídeo, o prefeito garante que não debocha do Judiciário e que respeita as decisões judiciais. O detalhe incômodo é que não as cumpre. Talvez, na lógica do personagem, respeitar seja apenas discordar em silêncio enquanto se continua fazendo o oposto.
O caso não passou despercebido. A liminar foi confirmada pela 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça e pelo próprio presidente da Corte. Ainda assim, Ferro preferiu bancar o intérprete solitário da Constituição de Ivinhema, reinventando o conceito de legalidade conforme a necessidade do mês — ou do contracheque.
O autor da ação popular, advogado Douglas Barcelo do Prado, não economizou palavras ao acusar o prefeito de má-fé e de afrontar “de forma assombrosa” o Poder Judiciário. Pediu multa, investigação e responsabilização por improbidade administrativa. Nada além do esperado quando um agente público resolve brincar de soberano em cidade alheia.
E não se trata de um desvio isolado. O desprezo pelas regras parece fazer parte do pacote. No fim do ano passado, o mesmo prefeito foi flagrado agredindo um eleitor com uma barra de ferro — e, fiel ao personagem, ainda se gabou do feito nas redes sociais. Violência como performance política. Brutalidade como ativo eleitoral.
No fim, a pergunta que fica é menos retórica do que parece: Juliano Ferro é apenas “o prefeito mais louco do Brasil” ou um marajá de província, desses que vestem o discurso antissistema enquanto desfrutam, com gosto, do sistema? Porque loucura, no senso comum, pode até despertar indulgência. Marajá, não.
