A queda, agora, foi literal. Jair Bolsonaro caiu, na prisão, bateu a cabeça e, segundo boletim médico divulgado por sua defesa, sofreu um traumatismo craniano leve. O episódio abriu espaço para uma nova rodada de especulações sobre a possibilidade de cumprimento de pena em regime domiciliar e, como tem sido recorrente nesses últimos tempos, deslocou o debate público do campo dos fatos para o da comoção em torno do ex-presidente.
Voltamos, pois, à mitologia, não por falta de assunto, mas por excesso de realidade. Depois de usar Zeus para explicar o parto traumático de Mato Grosso do Sul, ficou claro que os deuses do Olimpo continuam sendo ferramentas mais eficazes do que muitos analistas para compreender o Brasil recente. Especialmente quando o debate público insiste em chamar de “mito” aquilo que, à luz da história, sempre foi advertência.
Convém, portanto, insistir no tema. Não por fetiche clássico, nem insubordinação. Afinal, se há algo que a mitologia ensina é que mitos não são exemplos morais. São narrativas sobre poder, excesso, engano e punição. E, nesse sentido, o Brasil dos últimos anos se comportou como um laboratório mitológico a céu aberto.
Na Grécia antiga, havia dois irmãos titãs que ajudam a explicar esse processo: Prometeu e Epimeteu. O primeiro era o que pensava antes, o que antevia, o que roubava o fogo dos deuses para dar aos homens — e pagava caro por isso. O segundo era seu oposto complementar: aquele que pensava depois, quando pensava. Epimeteu foi o responsável por aceitar Pandora e abrir a caixa que espalha todos os males do mundo. Seu talento era aceitar presentes sem fazer perguntas.
O bolsonarismo é, essencialmente, epimeteísmo político. Nada prometia pensar. Prometia reagir, obedecer, repetir. Aceitou tudo: cloroquina, kit covid, voto impresso, fraude imaginária, fake news em série — inclusive a confortável ideia de que o mundo talvez fosse mais simples se não tivesse curvas. Pensar, pelo jeito, depois dos estragos da tentativa de golpe. Quando caiu a ficha de que a terra gira.
E o “mito”? Chamar Jair Bolsonaro de mito nunca foi elogio. Foi diagnóstico mal compreendido. Na mitologia, os mitos faziam coisas horríveis. Zeus, o maior deles, governava à base do engano, da violência simbólica e do abuso de poder. Traia, mentia, punia coletivamente e criava tragédias que depois fingia não entender. Ainda assim, era venerado.
Um de seus “feitos” mais celebrados é a criação da Via Láctea. A versão poética costuma esconder o detalhe grotesco: Zeus coloca Héracles, seu filho bastardo, para mamar no seio de Hera enquanto ela dorme. Ao acordar, Hera empurra a criança, o leite se espalha pelo céu e nasce a galáxia. Belo resultado. Origem repugnante.
Não é esse o padrão dos grandes “feitos” do mito dos trópicos? Resultados propagandeados, origens sempre fraudulentas, violentas ou ridículas?
Durante a pandemia da Covid, quando até os deuses gregos certamente agiriam diferente — ainda que mal —, o mito brasileiro zombou. Imitou gente sufocando, fez piada com vacina, tratou a morte como estatística irrelevante. Nem Zeus, com todo o seu currículo de crueldade, seria tão omisso diante da tragédia quanto o mito tropical diante de centenas de milhares de mortos.
Mas o nosso Epimeteu não se incomodou com isso. Ele aceita. Aceitou também os presentes. As joias sauditas são o exemplo acabado do epimeteísmo em estado puro: ouro, diamantes e relógios recebidos não como símbolos diplomáticos, mas como brindes pessoais. Na mitologia, presentes assim sempre cobram seu preço. Aqui, cobraram na forma de inquérito, recibo e manchete.
Depois, já fora do poder, quando o mito desceu do falso Olimpo e foi direto para a antessala da carceragem da Polícia Federal, veio o segundo presente: o pix milionário. Uma vaquinha digital para sustentar um deus deposto, como quem tenta converter fé em habeas corpus. Não houve milagre, não houve ressurreição — houve extrato bancário.
Em torno do mito, como sempre acontece, formou-se um panteão de semideuses caricatos. Arautos histéricos, guardiões da paranoia, filhos numerados como franquia política e personagens menores elevados à condição de heróis trágicos. Alguns gritam verdades reveladas em vídeos verticais; outros operam nas sombras; há ainda os que se eternizam como guardiões de tornozeleiras, zelando pelo inferno jurídico do bolsonarismo com devoção canina.
Nada disso é exceção. É regra mitológica. O problema não é o mito. É o gado — no sentido clássico, não pejorativo. A massa que se bestializa, que aceita sem pensar, que só entende depois. Epimeteu não é vilão; é advertência. Representa a humanidade que troca razão por conforto, pensamento por pertencimento.
No fim, a caixa de Pandora sempre se abre. Quando isso acontece, não sai esperança. Saem processos, delações, extratos, mensagens apagadas e um país inteiro tentando entender como confundiu tragédia com epopeia. Talvez o erro não tenha sido faltar Prometeu. Talvez o erro tenha sido sobrar Epimeteu. E chamar isso tudo de mito — achando que era elogio.
