“Há um novo fenômeno circulando nas redações improvisadas, nos grupos de WhatsApp e nas timelines mais animadas: o jornalista instantâneo. Não passou por pauta, não tomou bronca de editor, nunca perdeu texto por falta de gancho, mas acordou numa bela manhã convencido de que a Inteligência Artificial o transformou — por milagre — em jornalista consagrado. Alguns avançaram além da ousadia e já se imaginam herdeiros tardios de Roberto Marinho, Chateaubriand ou Samuel Wainer, como se impérios jornalísticos nascessem por geração espontânea — e não por décadas de poder, conflito e história.”
A IA, coitada, não tem culpa. Ela é educada, paciente, condescendente. Não devolve texto com um “cadê a notícia?”, não pergunta “qual é o gancho?”, não risca parágrafo inútil com caneta vermelha nem manda refazer abertura. Ou lead. Mesmo abrasileirado, lide — o que é isso mesmo? Ela ajuda. Mas ajudar não é substituir.
No jornalismo raiz, aquele aprendido no trecho, não existe passe de mágica. Existe faro, contexto, memória, repertório, erro, correção e, sobretudo, tempo de estrada. Texto sem gancho não é artigo — é exercício de vaidade. Texto bonito sem fato é só literatura acidental. Opinião sem lastro vira postagem motivacional com pretensão intelectual.
A IA não pauta. Não apura. Não sente cheiro de problema. Ela organiza ideias, sugere caminhos, melhora forma — desde que haja conteúdo do outro lado. Para quem já sabe o pulo do gato, é uma mão na roda. Para quem nunca soube, vira espelho enganoso: devolve um texto elegante, redondo, cheiroso, mas vazio.
Até aí, o risco é pequeno. O máximo que acontece é a proliferação de textos bonitos que não dizem nada. O problema começa quando essa modernidade redentora cai nas mãos erradas. Porque, além dos deslumbrados inofensivos, a Inteligência Artificial virou a ferramenta perfeita para os mal-intencionados — para não usar a palavra mais direta pela qual são conhecidos.
Nunca foi tão confortável praticar a velha picaretagem sob verniz tecnológico. Com um domínio barato, meia dúzia de prompts e nenhum escrúpulo, surgem “portais de notícias” que não informam: intimidam. Não investigam: achacam. Não publicam reportagem: emitem notas. Sim, notas fiscais. Sempre em nome do “interesse público”. Sempre com alvo bem definido: o empresariado e, principalmente, quem está com a chave do cofre público.
É a velha imprensa marrom, agora de fraque, cartola e linguagem pasteurizada. Antes precisava de gráfica, contatos e rua. Hoje basta um layout limpo, uma IA condescendente e a completa ausência de caráter. Cria-se o problema no texto para vender o silêncio fora dele. Chantagem com corretor ortográfico. Extorsão com parágrafo bem escrito. Lavagem de dinheiro com selo de “opinião”.
A Inteligência Artificial não criou esse tipo de gente. Eles sempre existiram. O que a tecnologia fez foi baratear o golpe, acelerar o processo e ampliar o alcance. Onde antes havia panfleto, agora há “editorial”. Onde antes havia fofoca, agora há “análise”. Onde antes havia ameaça explícita, agora há “nota crítica”.
E aqui o assunto deixa de ser folclórico para se tornar perigoso. Não para o jornalismo sério, que sempre soube se defender, mas para o ambiente público, para gestores acuados, para empresários honestos pressionados, para o leitor que já não sabe distinguir crítica legítima de banditismo retórico.
Convém repetir, sem romantismo nem ilusão tecnológica: a IA é ferramenta. Nas mãos certas, potencializa o bom jornalismo. Nas mãos erradas, vira arma de extorsão em escala industrial.
E não há prompt que resolva isso. O antídoto continua sendo o mesmo de sempre: história, reputação, responsabilidade e coragem para chamar as coisas pelo nome — mesmo quando o texto vem bonito, alinhado e sem erro de português.
Porque tecnologia nenhuma transforma picareta em jornalista. E credibilidade, essa velha senhora exigente, não aceita inteligência artificial como fiadora.
