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terça-feira, janeiro 27, 2026

Do Salão Oval da Casa Branca aos currais da política brasileira, onde o poder fica em família

Enquanto nos EUA Trump usa o DNA para sondar a Groenlândia, no Brasil o nepotismo cruzado e as dinastias regionais mantêm o poder como herança de mesa de almoço

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Nepotismo. Para quem pensava que isso era uma tradição da política brasileira, eis que Donald Trump resolve mexer também nesse vespeiro. Com o pragmatismo que lhe é peculiar, com a mesma facilidade com que joga bombas sobre o Irã ou sequestra ditadores sanguinários como Nicolás Maduro, o presidente americano, que já riscou do seu dicionário particular qualquer termo que soe globalista ou meramente diplomático, agora reafirma que o quintal da Casa Branca é, antes de tudo, um jardim de família.

Lá, o nepotismo não se esconde nas sombras. É o genro, Jared Kushner de Trump jogado aos leões para negociar a paz no Oriente Médio como se estivesse fechando um contrato imobiliário em Manhattan. É o filho, Eric ou Don Jr., cruzando o Ártico para sondar a viabilidade de “comprar” a Groenlândia — uma expedição que mistura delírio imobiliário com estratégia militar, buscando o flanco menos traumático para uma expansão com a marca da família. Para Trump, o Estado não é um conjunto de instituições, é um ativo familiar.

Enquanto Washington assiste a essa monarquia moderna, aqui no Brasil o figurino é outro, mas o tecido é o mesmo. A tradição da política nordestina é o nosso exemplo mais didático de dinastia. Por lá, o sobrenome vale mais que o plano de governo. Passa-se o governo do estado para o filho, a prefeitura da capital para o sobrinho e a vaga no Senado para a esposa, como quem herda uma fazenda de gado.

É o poder hereditário sobrevivendo dentro de uma República que, no papel, deveria ser para todos. No Nordeste, a política muitas vezes não se discute nas urnas, mas na mesa do almoço de domingo.

Mas não nos enganemos: o Sul, o Sudeste e o nosso Centro-Oeste não ficam atrás na criatividade. Se no Nordeste a coisa é escancarada, aqui por essas bandas — e principalmente nas famigeradas corruptelas do interior — o jogo é mais sutil. É o reino do nepotismo cruzado.

A regra é simples e vergonhosa: “Eu nomeio sua esposa aqui na minha secretaria, e você nomeia meu enteado aí na sua diretoria”. No papel, ninguém é parente de quem o contratou. Na prática, é um “toma lá, dá cá” de cargos que incha a folha de pagamento e esvazia a meritocracia. É a República dos Compadres, onde o mérito é substituído pelo DNA ou pelo laço matrimonial.

O nosso Judiciário, que se diz guardião da moralidade e impõe súmulas vinculantes contra o nepotismo, muitas vezes se vê de mãos atadas — ou finge não ver — as manobras de quem confunde o público com o privado. O nepotismo é a antítese da democracia; é o aviso de que, para subir na vida pública, o que importa não é o que você sabe, mas de quem você nasceu ou com quem você casou.

Se Trump ignora a barreira entre o Salão Oval e a árvore genealógica, ele apenas dá um verniz de “modernidade” a uma prática que na política paroquial brasileira já é o pão de cada dia. No fim das contas, a política vira um grande álbum de família, onde o povo entra apenas com o voto ou para pagar a revelação das fotos.

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