Na periferia da Grande São Paulo, no final dos anos 1970.
Você tem sete anos e, todas as manhãs, depois de comprar os pãezinhos na venda em frente à casa, tomar o café com leite e comer o pão com manteiga, sobe a ladeira rumo à escola do bairro. Camisa branca e calça curta azul — roupas feitas pela mãe —, chinelos nos pés, cadernos nas mãos; você tem um rosto feliz, um bronzeado de sol generoso.
O pai tem horários diferentes, segundo os turnos de trabalho. Nesta manhã, dorme, porque trabalhou à noite. Trabalho duro numa empresa metalúrgica longe de casa, transporte demorado, salário pouco, porém certo no final do mês.
É a mãe quem cuida dos quatro filhos do casal. Gostaria de trabalhar, como antes, quando era solteira, para ajudar nas despesas da casa, mas como fazer diante de tantas tarefas: lavar, passar, fazer comida, cuidar do filho de colo e dos outros, que ainda não têm idade escolar? E você, o mais velho, José — este é seu nome —, com apenas sete anos, ainda não pode cuidar dos irmãos sozinho.
O que você sabe da vida da família? Que os pais vieram da Bahia, que se conheceram no bairro onde a mãe morava com a irmã, em um quarto alugado — o mesmo bairro onde a irmã continua morando, agora casada e com três filhos. Assim, você tem dois primos e uma prima. O mais velho tem oito anos. Vocês começam o dia praticamente juntos, pois estudam na mesma escola.
Você gosta de estudar, de aprender. Esperou muito pelo momento em que poderia, você também, ir para a escola, como os outros que via passar, quando sentado na frente de casa, no ano passado. Tinha inveja. Queria começar logo. Pediu que a mãe falasse com o diretor da escola, mas não teve jeito: precisava esperar. Tinha a impressão de que o tempo não passava enquanto aguardava sua vez de frequentar os bancos escolares.
De volta da escola, o almoço: arroz e feijão com ovo ou carne. Gosta também de salsicha com molho de tomate e arroz.
A mãe sempre lhe pede para comprar alguma coisa que falta na venda da frente: café, margarina, fósforos ou outra coisa. As compras do mês são feitas no supermercado, que tem preços mais baixos. Os legumes vêm da feira de domingo de manhã, quando o pai fica com as crianças e a mãe pode ir às compras sem medo de deixá-las sozinhas.
Ela gosta de encontrar pessoas conhecidas do bairro. Não chega a ter amizades, mas pode dizer “bom dia”, dar um sorriso. Os odores das frutas e legumes, as cores, lembram-lhe a Bahia natal, quando era criança e sentia a grande liberdade de correr para onde quisesse, feliz, com quase nada.
Depois de fazer as tarefas da escola e ajudar a mãe, lavando alguns pratos ou varrendo a cozinha, chega a hora de brincar. Você gosta de soltar papagaio com o primo João e os amigos da rua. É ele quem faz a estrutura do papagaio — ou da pipa, como muitos meninos chamam. Encontra na rua o necessário para fazer as varetas: uma menor, que vai da direita para a esquerda, e outra maior, que cruza a primeira, de cima para baixo. Seu primo compra o papel de seda colorido e traz a cola de casa.
Depois da cabeça, o trabalho se concentra no rabo do papagaio, na rabiola. Você gosta que ela seja bem colorida e que, na ponta, tenha umas cinco tiras de papel que vibram no ar. Adora ver esse espetáculo no céu.
Olhando a pipa, você “voa” com ela, sente-se acariciado pelo vento, imagina-se vendo a terra lá de cima. Às vezes, sonha que voa e vê os meninos correndo atrás das pipas, lá embaixo, tão pequenos, porém ágeis no manejo do brinquedo. E você, lá do alto, olhando tudo, podendo imitar os passarinhos, subindo e descendo, até mesmo voando de peito para cima!
Nessas ocasiões, aproveita para conhecer melhor o bairro e, além dele, ver aqueles telhados, pequenos quadrados que são as casas vistas do alto. Mas, com medo de se perder, assim que percebe que foi longe demais, volta atrás pelo mesmo caminho.
— Zézinho, faz um papagaio pra mim também, faz?
Martinha é sua amiga. Estudam juntos, têm a mesma idade, cabelos longos sempre trançados. Filha da dona Maria da venda, brinca com você na sua casa, onde às vezes toma lanche. Outras vezes, é você quem vai à casa dela e ganha balas da mãe dela.
— Como? Você é menina!
— E daí? Você faz para todo mundo, pode fazer pra mim também. Menina pode soltar papagaio, não pode?
— Menino com menino, faca sem ponta, galinha sem pé!
— O que é isso, Zézinho? Onde foi que você tirou isso?
Martinha não gostou da resposta, mas, vendo que o amigo não estava disposto a mudar de ideia, enturmado que estava com os meninos, saiu da roda prometendo a si mesma que, quando ele viesse pedir para brincar com ela — na falta dos meninos —, ela saberia o que dizer. E iria aprender a fazer a própria pipa.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
