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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Soberania x ditadura: captura de Maduro pelos EUA reativa discursos ideológicos antes das eleições

Para analistas, captura de Maduro, que deve ter reflexos nas eleições de outubro, dá margem tanto a estratégia para associar PT a venezuelano quanto a discurso de defesa da soberania nacional, principal aposta de Lula

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A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por militares dos Estados Unidos em Caracas deve ter reflexos nas eleições brasileiras, com o efeito imediato de entrincheirar o bolsonarismo e o petismo em dois de seus discursos favoritos: a reativação, à direita, da narrativa anticomunista e de associação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT a ditaduras, e o reforço, à esquerda, da bandeira de soberania nacional bem-sucedida durante o tarifaço imposto pelo governo americano a produtos do Brasil.

— O tema da Venezuela atinge o imaginário bolsonarista como uma forma de atacar a visão de esquerda e o petismo propriamente dito. Mas, isso também cria, de certa forma, um imbróglio na direita, porque pode alimentar ainda mais a defesa da ideia de soberania nacional e fortalecer o Lula como foi no episódio do tarifaço — afirma o cientista político Paulo Ramirez, da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (Fespsp).

Diferentemente do observado no anúncio da sobretaxa sobre as exportações brasileiras, porém, a controversa postura do líder venezuelano, acusado de perseguir opositores e ferir direitos humanos, e a ausência de consequências econômicas imediatas estimula candidatos de oposição a endossar a posição de Donald Trump e tentar se colocar em evidência inclusive em setores moderados. Isso porque, como aponta o especialista, Maduro não é consenso sequer na esquerda.

Investida eleitoral

Desde que houve a invasão americana, parlamentares e governadores de oposição buscaram colar Lula ao líder venezuelano. Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar o Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a afirmar que o petista e Maduro seriam iguais e que o Brasil “não pode repetir o roteiro da Venezuela”.

Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) celebrou a medida nas redes sociais, alinhando-se novamente a Trump depois de sofrer desgaste durante o tarifaço. Não há perspectiva de prejuízo de imagem em seu eleitorado mais fiel neste caso, como o agronegócio e o empresariado paulista, por mais que haja uma certa dúvida sobre as consequências no mercado internacional, especialmente o setor de petróleo.

Em outra frente, representantes do campo também fizeram uma ofensiva para associarar o PT e o presidente brasileiro ao narcotráfico na América Latina, em uma alusão ás acusações feitas pelo governo Trump sobre Maduro. O movimento gerou uma reação da legenda de Lula, que ingressou com uma série de ações judiciais contra políticos de direita.

O cientista político Rui Tavares Maluf adverte que o governo Trump já tem dado sinais de que esse apoio precoce pode ser um tiro no pé para opositores de Lula. O americano fez declarações no sentido de anexar a Groenlândia, que pertence à Dinamarca, um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia. O fato de as eleições brasileiras estarem marcadas para outubro oferece tempo mais do que suficiente para Trump concretizar a ideia.

— É uma discussão tão grave que pode borrar as fronteiras ideológicas. Já existe uma agressão do ponto de vista retórico, com a insistência do governo americano nessa medida. Se daí ocorrer uma agressão militar, torna o uso político desse episódio um problema — aponta o pesquisador.

Sobre o impacto eleitoral, Maluf interpreta a postura de Tarcísio e de outros governadores de direita como uma forma de “esticar ao máximo” a relação com Bolsonaro e o seu eleitorado, mesmo diante do posicionamento da candidatura de Flávio, ainda vista com desconfiança no meio político. Outros nomes mais desconhecidos, como os governadores Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, aproveitam a notícia para tentar vencer essa barreira.

Ganhos diplomáticos

No caso da esquerda e do PT, Maluf diz que a decisão de focar no discurso da soberania e não em uma defesa do regime de Maduro revela tanto as contradições sobre a pauta, que tem divisões claras dentro do PT e da coligação lulista, quanto uma tentativa de preservar os ganhos diplomáticos com a reversão do tarifaço e a boa interlocução mantida atualmente com os Estados Unidos. É difícil evitar, porém, o histórico “benevolente” com os abusos cometidos na Venezuela, revertido apenas recentemente com o não reconhecimento do processo eleitoral de 2024.

Samuel Lima/O Globo — São Paulo

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