O périplo de José Carlos Barbosinha, governador em exercício, pelo interior do Estado, inaugurando e entregando obras ao longo da semana passada, teve como pano de fundo imediato no quadro sucessório do ano que se inicia. Até porque este é o momento em que a corrida sucessória de 2026 deixa de ser especulação e começa a ficar interessante. E, como em todo bom tabuleiro de xadrez, há peças que parecem estáticas, mas carregam um potencial enorme de ruptura. Poucas hoje simbolizam isso com tanta clareza quanto Barbosinha e, entre os que correm por fora, a ex-deputada federal Rose Modesto, em um cenário que também começa a abrir flanco para o senador Nelsinho Trad, cujo projeto de reeleição pode capitalizar com o peso do sobrenome Trad, caso o irmão, o ex-deputado Fábio Trad, venha a integrar a cédula majoritária como candidato ao Governo pelo PT.
Sem mandato eletivo, fora do Parlamento e distante de qualquer cargo que gere amarras jurídicas, Rose vive uma condição rara na política estadual: liberdade plena. Não está sujeita à regra da infidelidade partidária, não corre risco de punição judicial e não precisa negociar sua sobrevivência institucional. Some-se a isso o recall das eleições municipais em Campo Grande dois atrás, onde a má administração da eleita, Adriane Lopes, reverte-se em seu favor. Em um cenário em que quase todos os nomes relevantes estão presos a federações, acordos e compromissos antecipados, essa liberdade vira ativo estratégico de alto valor.
Se o espaço na Federação PP–União Brasil ficar pequeno — e todos os sinais indicam que ficará — Rose pode simplesmente mudar de partido e se lançar candidata ao Governo do Estado sem medo de retaliação. É um movimento simples no papel, mas devastador na prática, porque rompe o desenho de hegemonia cuidadosamente planejado pelo grupo que hoje comanda o Executivo.
Entre os destinos possíveis, o mais lógico é o Podemos. Soraya Thronicke também se encontra fora do chamado “grupão” de Eduardo Riedel, que já concentra seus espaços majoritários entre Reinaldo Azambuja, no PL, e Nelsinho Trad, no PSD. Não há cadeira sobrando, e Soraya sabe disso. Uma composição entre Rose e Soraya cria algo raro no cenário mato-grossulense: uma chapa feminina forte, competitiva e claramente posicionada como alternativa ao eixo Riedel–Reinaldo.
Rose disputando o Governo e Soraya o Senado formariam uma dobradinha com grande apelo na capital, discurso de independência e capacidade real de atrair o eleitor urbano e a classe média que demonstra crescente cansaço com a política de continuidade. Não seria um voo solo ou aventureiro, mas um projeto com musculatura eleitoral.
É nesse ponto que outro movimento silencioso ganha importância: a valorização súbita de Barbosinha. Enquanto Rose permanecia orbitando a Federação, a vice de Eduardo Riedel era uma questão de conveniência política. Com a possibilidade de Rose migrar para a oposição, a manutenção de Barbosinha deixa de ser escolha confortável e passa a ser questão de sobrevivência.
Riedel precisa de um vice com lastro no interior, conhecimento de base municipal e trânsito consolidado entre prefeitos e lideranças regionais para enfrentar, fora da capital, o carisma que Rose tem em Campo Grande. Mais do que isso, manter Barbosinha é manter o PSD no palanque. Perder o partido de Nelsinho Trad para uma eventual candidatura de Rose significaria disputar 2026 em condições de altíssimo risco, com a base rachada e o tabuleiro instável.
O desenho do conflito começa a se tornar cristalino. De um lado, Rose Modesto, livre, sem amarras e com caminho aberto para o Podemos, podendo se consolidar como principal adversária do sistema que hoje governa o Estado. Do outro, Eduardo Riedel, cada vez mais dependente de duas colunas de sustentação: a força eleitoral de Reinaldo Azambuja no PL e a lealdade estratégica de Barbosinha para segurar o PSD.
Se Rose se move, o jogo muda. Se Rose se move para o Podemos, a hegemonia planejada deixa de ser confortável e passa a ser efetivamente desafiada. Em política, especialmente em Mato Grosso do Sul, não vence quem fala mais alto, mas quem entende primeiro os sinais do mato. E a saracura vem fazendo cada vez mais alarido no quintal de Barbosinha, à beira do Laranja Doce.
