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terça-feira, janeiro 27, 2026

Crônica de um agente secreto com chuteiras

Entre coincidências cinematográficas, taças providenciais e um técnico italiano em missão especial, o futebol volta a ser escalado como coadjuvante de luxo no velho roteiro do poder brasileiro

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Dizem que todo grande líder tem um agente secreto. Alguns têm a CIA, outros o Mossad. Lula, sempre mais criativo e tropical, parece preferir algo mais cinematográfico: um filme premiado aqui, uma taça levantada ali, um “é hexa!” acolá. Tudo muito casual. Coincidências da vida — essa roteirista petista incorrigível.

O Globo de Ouro, por exemplo, conquistado na noite passada por Wagner Moura, surge assim, despretensioso, como quem diz “foi só arte”. Mas todo brasileiro atento sabe: não existe tapete vermelho inocente em ano pré-eleitoral. É apenas mais um degrau na escadaria simbólica que leva à rampa do Planalto. Degraus são importantes. Escadas derrubam governos; rampas consagram mitos.

Mas o verdadeiro plot twist vem da Itália. Carlo Ancelotti, ou Carlito, para os íntimos do Planalto, desponta como o James Bond de terninho esportivo, enviado em missão especial: ganhar o hexa para salvar a pátria — e, de quebra, dar aquela ajudinha providencial ao presidente que parece ter feito pacto vitalício com a sorte. Não à toa, o técnico já foi homenageado pelo Planalto antes mesmo de escalar um lateral. Previdência política é tudo.

Imagine a cena: Galvão Bueno em transe místico, repetindo “é hexa! é hexa! é hexa!” até perder a voz e talvez a razão. O país em catarse coletiva. E Lula, no alto da rampa, aguardando os campeões como quem espera velhos companheiros de luta armada — armada, no caso, de chuteiras e patrocinadores. A taça reluz, o povo vibra, e o marketing agradece.

Claro, há obstáculos. Sempre há. Mas Lula não parece apenas ter nascido com “aquilo” virado pra Lua — nasceu com a Lua dentro daquilo. O universo conspira, o calendário ajuda, e o futebol, esse velho aliado dos governos espertos, nunca falha. Um título do Corinthians aqui, quem sabe uma Libertadores acolá (glória eterna é sempre bem-vinda), mas nada que atrapalhe o timing eleitoral. Mundial, Brasileirão, Copa do Brasil? Tudo junto? Não dá tempo de capitalizar. Política exige parcimônia até nas glórias.

O hexa, não. O hexa é perfeito. É grande, é raro, é patriótico. Remete a 1970, quando o general Médici — aquele simpático sanguinário — entendeu que futebol também se escala. Tirou João Saldanha, o comunista inconveniente, botou Zagallo e empurrou Dario Pereira goela abaixo da história. O resultado foi a melhor seleção de todos os tempos e um país distraído, cantando, enquanto a farda sorria e os aviões búfalos da FAB despejava prisioneiros políticos no mar.

Lula aprendeu a lição, só que com mais gingado e menos coturno. Ele sabe tirar proveito dessas sincronicidades históricas, mesmo com processos incômodos como o caso Master rondando o noticiário, aguardando também seu momento eleitoral para dar as caras. Nada é aleatório. Nem o silêncio, nem o barulho.

Só falta mesmo ressuscitarem Dom e Ravel para um remake patriótico, talvez com batida eletrônica: “eu te amo, meu Brasil eu te amo”, versão 2026, patrocinada por alguma estatal cultural. A história não se repete, dizem. Mas no Brasil, ela faz reprise, com novo elenco e o mesmo enredo.

E assim seguimos, torcendo, votando, cantando e acreditando que tudo isso é apenas futebol, cinema e coincidência. Afinal, agente secreto bom é aquele que ninguém percebe — especialmente quando entra em campo de terno, gravata e chuteiras.

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