Estará, não estará? Sim, porque ele pode ter viajado, saído para comprar pão ou ainda estar dormindo, por exemplo. Aperto o botão da persiana elétrica. Ela vai subindo, subindo… Estará? Não estará?
Nessa hora matinal — 6h — de inverno nesta parte do Norte do mundo, ainda é noite. O dia não chegará antes das 8h30. Sim, há luz no apartamento dele. Quem é? Não tenho a mínima ideia. Mas tenho uma certa ligação com ele. Na frente da minha janela da cozinha, eu o vejo praticamente todas as manhãs. De forma que ele é uma espécie de amigo, um vizinho distante com quem nunca falei, mas essa cumplicidade calada, nesta hora matinal do dia, é bem real.
Nada sei dele. Penso que esteja aposentado, pelo que posso perceber de sua idade a uns 15 metros de distância. Não o vejo durante o dia. Digamos que nosso encontro se dá pela manhã. Penso nele quando não o encontro lá, na minha frente, fazendo sua ginástica. Penso que viva sozinho. Nunca vi outra pessoa, uma mulher no quarto. Sim, porque é ao seu quarto que tenho acesso visual. A cozinha e a sala devem ficar do outro lado do prédio, ao qual não tenho vista.
Sim, ele está lá, de pé, fazendo sua ginástica. Camiseta e short branco. Braços para a frente, para trás, para cima. Está de costas. Em um momento, ele deve sentar-se na beira da cama para fazer os movimentos de remar. Os exercícios são sempre os mesmos e duram cerca de 20 minutos. Todos os dias. Devem mantê-lo em forma.
Contente em sabê-lo em vida — deve ser isso — fico tranquila, vou cuidar de minhas coisas e acabo esquecendo-o até o momento em que volto à cozinha para tomar outro gole de café. É quando não o vejo mais. Deve ter ido tomar seu café do outro lado do apartamento.
Tenho vontade de ter um binóculo para ver quem é, se já o cruzei no bairro, na padaria ou fazendo outras compras nos comerciantes da redondeza.
Chovendo ou fazendo sol, ele está sempre lá. Um companheiro!
