Há acontecimentos que não se explicam apenas pelo presente. Eles exigem memória, contexto e, sobretudo, coragem para admitir o óbvio: demorou demais. O que se viveu em Dourados nesta sexta-feira, com a assinatura do contrato de quase R$ 49 milhões para levar água potável às aldeias Jaguapiru e Bororó, não foi uma simples solenidade administrativa. Foi um ajuste de contas com a história — daquelas que envergonham.
São mais de cem anos de existência da maior reserva indígena urbana do Brasil convivendo com a precariedade absoluta de um direito básico. Cem anos de improviso, caminhão-pipa, poços rasos, promessas recicladas e relatórios engavetados. Cem anos em que o poder público soube diagnosticar o problema, mas não conseguiu — ou não quis — enfrentá-lo estruturalmente.
E aqui entra um ponto fundamental, lembrado pelo deputado estadual Zé Teixeira durante a solenidade, ao evocar os mais de cem anos de existência das aldeias: a burocracia federal, especialmente a da Funai, que ao longo das décadas engessou ações mais efetivas dos estados e municípios. Em nome da proteção, criou-se um emaranhado de normas, pareceres e indefinições que, na prática, impediram soluções estruturantes. Enquanto Brasília “decidia”, a sede fazia escola — e vítimas — em Dourados.
Não se trata de demonizar a Funai ou negar a importância da tutela aos povos originários. Trata-se de reconhecer que o excesso de entraves virou cúmplice silencioso de uma tragédia continuada. A burocracia que deveria garantir direitos minimamente humanos acabou, muitas vezes, postergando-os indefinidamente.

E é justamente por isso que a cena precisa ser registrada com o peso que merece. No mesmo palco estiveram personagens que, em tempos distintos, tocaram essa ferida aberta: o vereador Marcelo Mourão, que levou ao Senado a imagem de uma criança “matando aula” porque não tinha água em casa; a então repórter Lia Nogueira, hoje deputada, que durante anos denunciou essa tragédia; parlamentares que enfrentaram a burocracia federal; e um deputado, especificamente, Rodolfo Nogueira, que precisou chutar o pau da barraca em Brasília para arrancar recursos a fórceps durante uma reunião de bancada, para seus irmãos e lindeiros do Jaguapiru.
Mas o ponto central da história é outro — e ele atende pelo nome de José Carlos Barbosa, o Barbosinha. Foi durante sua presidência da Sanesul, ainda no governo Reinaldo Azambuja, que começou a surgir algo raro nessa novela: planejamento técnico com horizonte de futuro, pensado até 2033, com reservatórios, poços profundos, redes extensas, ligações domiciliares e não mais soluções paliativas. Agora, como governador em exercício, Barbosinha volta à cena para fazer o que o Estado devia há décadas.
Não é exagero dizer: coube a ele decretar o fim de uma das páginas mais tristes da história de Dourados. E ao prefeito Marçal Filho assumir o papel que lhe cabia. Seu discurso, teve virtudes e transparência — como todo discurso político. Ao mesmo tempo em que fez justiça às parcerias institucionais e ao papel da bancada federal, deixou escapar, ainda que involuntariamente, o retrato de uma engrenagem pública lenta, engessada, que naturalizou o inaceitável. Quando o prefeito diz que “vai demorar”, ele fala a verdade administrativa. Mas essa verdade dói, porque o tempo que falta agora é o mesmo tempo que sobrou por cem anos.
Ainda assim, o gesto importa. A parceria importa. A assinatura importa. Porque desta vez não se trata de promessa. Trata-se de ordem de serviço, de projeto analisado e aprovado pela Caixa Econômica Federal, de dinheiro carimbado, de obra que sai do papel.
Nada disso apaga o passado. Nada disso devolve os dias sem água, as crianças doentes, as aulas perdidas, a indignidade cotidiana. Mas tudo isso sinaliza algo raro no Brasil: o reconhecimento explícito de uma falha histórica acompanhado de uma ação estrutural.
A água que ainda vai demorar alguns meses para chegar às torneiras das aldeias Jaguapiru e Bororó já começou a correr — simbolicamente — no dia em que o Estado, o município e a União pararam de empurrar a culpa uns para os outros e decidiram, enfim, assumir a própria responsabilidade.
Que fique registrado: Dourados virou essa página não com festa, mas com atraso. Não com heroísmo, mas com obrigação. E talvez seja exatamente por isso que o momento seja histórico. Porque, às vezes, governar não é fazer discurso bonito. Mesmo chegando tarde, reconhecendo a vergonha — e ainda assim fazer o que precisa ser feito.
