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quinta-feira, janeiro 22, 2026

A receita de Marçal para a longevidade no poder

Entre corpos cansados, rituais esgotados e gestos performáticos, a política douradense revela como a longevidade no poder passou a depender menos do discurso e mais da encenação de vitalidade

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A morte, ontem, aos 66 anos, do ex-vereador Creuzimar Barbosa, braço direito e companheiro inseparável de Murilo Zauith, impôs um silêncio que a política costuma evitar. Não se trata apenas de despedida de um personagem dos bastidores, mas o lembrete incômodo de que o tempo — esse adversário implacável — segue cobrando seu preço das lideranças que moldaram a cidade. A política douradense está envelhecendo, e o que se apresenta como renovação não é exatamente animador. Não se trata apenas de calendário ou estatística. O desgaste agora se revela nos corpos, nos gestos contidos, nas pausas forçadas e nas ausências que se acumulam.

Esse processo ficou escancarado na sexta-feira passada, durante um evento da Sanesul, em Dourados. O que deveria ser uma solenidade protocolar acabou funcionando como uma radiografia involuntária da elite política local. Discursos longos, sol a pino, liturgia esticada por um cerimonial mais político do que técnico — e corpos que já não respondem com a mesma docilidade de outros tempos.

No que parecia ser seu último ato como governador em exercício neste período, o vice Barbosinha precisou abandonar o palanque às pressas, ao que pareceu, atendendo a um chamado urgente da natureza. Nada de extraordinário. Apenas humano. Mas revelador. A política insiste em exigir resistência sobre-humana, como se tripas, estômago e limites físicos fossem detalhes secundários do ofício.

Superada a urgência fisiológica de Barbosinha, instalou-se no palanque um constrangedor senta-levanta. O veterano deputado Zé Teixeira, velho cacique da política estadual, foi um dos que precisaram sair em busca de um banquinho providencial. Nada dramático, mas simbólico. A política segue exigindo que seus quadros permaneçam em pé quando muitos já precisam, legitimamente, sentar.

O prefeito Marçal Filho, apesar do joelho cronicamente comprometido, ainda demonstrou disposição e presença de espírito. Em meio ao desconforto geral, recorreu a Winston Churchill para aliviar a tensão: “Churchill dizia que três coisas são difíceis na vida: segurar um muro quando está caindo, beijar uma mulher andando de bicicleta e fazer discurso na hora do almoço.” A frase arrancou risos contidos e uma concordância silenciosa. A cabeça seguia em forma, mesmo quando o corpo já pedia negociação.

A ironia prosseguiu. Aproveitando a deixa de Zé Teixeira, que se referiu ao deputado Rodolfo Nogueira como o “baixinho do Bolsonaro”, Marçal completou com humor ácido: talvez o aliado de primeira hora já estivesse sentindo os efeitos do monjaro. O antigo “Gordinho do Bolsonaro” emagrecera — no corpo e no apelido. A graça, porém, escondia algo menos leve: até os mais jovens já dão sinais de desgaste num ambiente político que cobra presença constante, fôlego infinito e disponibilidade permanente.

É nesse cenário de corpos cansados e rituais esgotados que Marçal parece ter encontrado sua própria receita de longevidade no poder. Mesmo com o joelho doente, aposta numa espécie de pirotecnia administrativa que mistura simbologia, presença física e espetáculo cotidiano. Ora aparece saltitando em boca de dragão, ora pintando muro de escola, ora plantando mudas de ipês ao longo das avenidas, numa tentativa quase pedagógica de transformar Dourados numa cidade mais florida — no sentido literal e no figurado. É política performática, sem dúvida, mas também leitura correta do tempo: quando o corpo já não aguenta longos palanques, a imagem em movimento passa a sustentar o poder.

Fora do palanque, mas sempre orbitando o cenário, Murilo Zauith representa um capítulo à parte. Sobreviveu a nove meses de internação por Covid, algo que poucos suportariam. O corpo carrega marcas evidentes, mas a cabeça segue afiada, inquieta, estratégica. É a prova de que, na política, a mente costuma resistir mais do que o físico, ainda que o preço seja alto.

No mesmo compasso, o ex-vereador, prefeito e deputado, meu professor Laerte Tetila, já passado dos 80 anos, observando a vida pública à distância, entregue à música, às memórias e à serenidade de quem já percorreu todos os palanques possíveis.

O sinal de alerta, contudo, não se restringe aos veteranos. A doença não respeita idade nem mandato. A deputada Gleice Jane, jovem e grata revelação dessa mesma política, enfrenta a síndrome de Guillain-Barré, lembrando que a política também adoece seus quadros mais novos, física e emocionalmente, principalmente ela, pela defesa incessante e intransigente da causa dos povos originários.

E há desfechos ainda mais duros. O ex-deputado, meu velho amigo, Roberto Razuk, além de graves problemas de saúde e já octogenário, cumpre prisão domiciliar, monitorado por tornozeleira eletrônica. Um fim de linha marcado não pela aposentadoria tranquila, mas pelo isolamento e pela vigilância — a antítese do poder que um dia exerceu.

O quadro que se desenha é desconfortável. A política douradense segue operando como se o tempo não tivesse passado, como se corpos fossem eternos e agendas inesgotáveis. Ideias podem permanecer jovens. Projetos podem atravessar gerações. Ambições não envelhecem. Os corpos, porém, não negociam.

E talvez esteja aí a lição mais incômoda: enquanto alguns insistem em se apoiar no muro para não cair, outros tentam se manter de pé em movimento. Em tempos de desgaste físico e simbólico, a longevidade no poder já não depende apenas de votos ou discursos — mas da capacidade de encenar vitalidade quando o corpo começa a cobrar a conta.

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