35.3 C
Dourados
terça-feira, janeiro 27, 2026

Uma igreja lusófona em Paris

- Publicidade -

Não sou praticante. Embora educada no catolicismo até a primeira comunhão, a fé ficou distante. O que não acabou com o meu gosto de frequentar igrejas, em geral patrimônio histórico aqui na Europa. São lugares de paz e tranquilidade — com exceção dos grandes monumentos, a exemplo de Notre-Dame, onde os turistas não param de circular.

Mas fui a uma missa para lembrar uma pessoa, um brasileiro da Bahia, que partiu para as estrelas. Trabalhava na Unesco. Quando o conheci? São tantos os anos que vivo por aqui que as lembranças se perderam nos caminhos da memória. Sua imagem não me é estranha, mas onde o conheci? Seu amigo encontrou meu endereço de e-mail na agenda dele, assim como os de cerca de outros vinte convidados ao serviço religioso.

A igreja é, na verdade, uma basílica construída no 19º arrondissement, no noroeste da cidade de Paris, um santuário católico erguido em ação de graças após a Segunda Guerra Mundial, entre 1951 e 1954. Imponente por seu tamanho e por sua torre de sinos, em concreto armado que lembra pedra, é dedicada a Nossa Senhora de Fátima – sim a Fátima portuguesa – e à comunidade lusófona desde os anos 1980.

E a missa das 11h desse domingo passado é celebrada em português! Minha falta de hábito de frequentar missas me deixou surpresa com a quantidade de pessoas. Nunca vi tanta gente reunida para rezar: adultos, jovens, crianças… A igreja se encheu nos últimos minutos antes de a cerimônia começar. Lotada! Mais de uma hora seguindo os passos dos outros, num levanta e senta ao qual já não tinha mais experiência. Não podia ficar impassível, sentada o tempo todo, com os fiéis se movimentando conforme o ritual.

A missa finda, as partidas e uma quantidade de carros. Carros grandes, de valor, de portugueses não apenas de Paris, mas também da região. Portugueses de gerações diversas, que fizeram a vida em terras francesas, sobretudo durante a ditadura de Salazar. E agora – portugueses de Paris e região votando à direita!

E eu, vendo tudo isso, não encontrei os amigos do amigo que vieram rezar por sua alma.

  • Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
    Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-