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terça-feira, janeiro 27, 2026

A fé performática do Gordinho do Bolsonaro

Quando falta projeto político, sobra encenação bíblica — e a política vira palco de metáforas barulhentas

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Parece que o deputado Rodolfo Nogueira, o eterno “Gordinho do Bolsonaro”, depois de perder — com a prisão do chefe — a função de guardião da tornozeleira, resolveu calçar as sandálias do profeta. Não as havaianas do cidadão comum, mas as da fé performática. Agora, sem ter o que vigiar além da própria relevância, ele encena uma reinterpretação evangélico-política que faria São José largar tudo e ir tomar um tereré com a galerinha na carroceria de uma RAM, ali nos altos da Avenida Dom Redovino, entre condomínios fechados e a falsa iluminação espiritual deste domingo quente e entediante em Dourados.

Na última investida retórica, o deputado pegou carona na marcha de Nikolas Ferreira, o colega mais midiático, e anunciou, com a convicção de quem confunde café da manhã com revelação divina, que a tal “marcha de Jericó” vai derrubar as muralhas do sistema e libertar o messias preso. Só faltou combinar com Deus — e com a História, que registra Jericó como cidade cananeia, não como ala do sistema penitenciário da Papuda, em Brasília. Mas quem liga para detalhes quando o objetivo é transformar metáfora em manchete?

Sejamos justos: Rodolfo entende como poucos de performance bíblico-política. Já havia nos emocionado semanas atrás com o episódio das sandálias, quando, em nome da fidelidade bolsonarista, jogou no lixo de sua casa um par de havaianas para abraçar as concorrentes. Um gesto tão épico que até hoje o departamento de marketing da Alpargatas deve estar em estado de choque. Se a intenção era virar garoto-propaganda, conseguiu — daqueles que a gente vê, ri e pergunta em silêncio: “ele tá bem?”

Agora, o “gordinho” do monjaro federal gasta energia simbólica discutindo chinelo e reorganizando o Antigo Testamento para caber no xadrez de Brasília. E o pior: corre o risco de jogar fora uma reeleição que parecia garantida, com sua fidelidade canina ao bolsonarismo, por acreditar que política é teatro de quinta categoria, desses em que o ator confunde gargalhada com aplauso.

Comparando a marcha de Nikolas com a de Jericó, a coisa ficou séria. Ou cômica, depende do humor do leitor. Na visão do deputado, Bolsonaro vira Josué, o STF são os muros da cidade ímpia, e os apoiadores — claro — os sete sacerdotes com trombetas em punho. Só esqueceu um detalhe inconveniente: na história original, as muralhas caíram, no evento que é um marco histórico da conquista de Canaã. Na versão Nogueira, o máximo que caiu até agora foi a credibilidade do mensageiro.

O que Brasília pode esperar? Se depender do nosso “Gordinho de Jericó”, muito barulho, muita metáfora e nenhuma muralha no chão. Porque, no fundo, toda essa encenação diz menos sobre fé e mais sobre a fome de holofote de quem percebe que, sem o chefe no poder, sobra pouco além do papel de apóstolo de uma causa que já vai virando lembrança.

E o Mato Grosso do Sul? O MS segue na plateia, entre o riso nervoso e o desespero resignado, torcendo para que um dia a prioridade volte a ser estrada, hospital, escola — e não a próxima sandália jogada no lixo ou a próxima muralha imaginária derrubada no Plenário do Congresso Nacional.

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