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terça-feira, janeiro 27, 2026

As novas caras da política de Dourados para o pós-Marçal

Marçal olha o alto do poder; Isa, Botelho e Gianni movimentam o chão onde a política realmente se decide

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Com todo o respeito que se deve ter aos caciques e coronéis que estão nos estertores — políticos de carreira longa, discursos reciclados e assessores cansados —, mas como o tempo é implacável, talvez seja hora de começar a redesenhar o mapa do futuro. A renovação política de Dourados não virá imposta goela abaixo, por decretos de gabinete no Parque dos Poderes, em Campo Grande; muito menos brotará do castelo de sonhos azambujistas ou das ambições que outras vertentes sempre exercitaram nos bastidores, como se o PC (posto de comando) fosse vitalício e não uma disputa que aflora, antes de tudo, nas comunidades.

Desta vez, há fortes indícios de que esse processo de renovação passará, necessariamente, pela Assembleia Legislativa. No nascedouro natural da política local — o Legislativo municipal — há hoje mais candidatos à aposentadoria precoce do que propriamente lideranças em gestação. É na Assembleia que o longevo deputado Zé Teixeira deve, enfim, dependurar as chuteiras, abrindo espaço num tabuleiro cada vez mais congestionado por figuras em fim de linha. Ao lado dele, outros nomes — de prestígio minguado ou comprometidos por otras cositas más — também podem sair antes do apito final. É o caso de Neno Razuk que, apesar do sobrenome herdado do pai, Roberto, carrega um processo judicial denso o suficiente para abreviar não apenas a carreira, mas o próprio mandato, talvez ainda antes do encerramento desta legislatura.

Enquanto o prefeito Marçal Filho parece cada vez menos interessado no feijão com arroz servido na prefeitura — até por sua conhecida capacidade administrativa pirotécnica — e mais focado em se projetar como comandante em chefe da política local, o chão da disputa começa a se mover em outro lugar.

Tendo atingido o estrelato popular antes mesmo de virar prefeito, Marçal já não disputa a terceira estrela gemada de coronel. O horizonte dele é outro: quatro estrelas de cinco pontas, dispostas em “X”, abaixo de um emblema invisível, mas perfeitamente compreendido por quem frequenta os bastidores da caserna política. O projeto já não é administrativo; é hierárquico. Não é mais governar, é comandar. Mandar mesmo quando não aparece. Decidir mesmo quando não assina.

Só que a política, como a engenharia em zona de conflito, tem dessas ironias fatais: enquanto o general se debruça sobre o mapa, convencido de que controla o teatro de operações, o rolo compressor avança no terreno real, aplainando o caminho para uma tropa que nem sempre obedece — e que, em tempos de guerra e até de sequestro de chefes de Estado, aprende rápido a distinguir comando formal de poder efetivo, podendo mudar de lado sem aviso prévio.

É nesse subsolo político que surgem três personagens capazes de indicar por onde pode passar a próxima renovação de Dourados — não como ruptura épica, mas como rearranjo realista.

Tiago Botelho, professor universitário, fala de futuro olhando pela janela de seu escritório político estrategicamente instalado na esquina da Justiça Eleitoral. Depois de somar mais de duzentos mil votos para o Senado e outros dezoito mil para a prefeitura, parece convencido de que já cumpriu a fase pedagógica da própria trajetória. Agora quer disputar para ganhar. Aos 43 anos, aposta que o PT pode voltar a ter musculatura no Estado, desde que pare de brigar consigo mesmo — o que, historicamente, é pedir para Santo Agostinho descer do oratório.

Botelho soma votos como quem soma cicatrizes. E olha para a Assembleia como quem entende onde o jogo começa de verdade. Nesse mesmo tabuleiro aparecem duas figuras que, cada uma a seu modo, dispensam apresentações.

Isa Marcondes é fenômeno eleitoral. Barulhenta, performática, dona de uma militância que se move à base de fé, inimigos imaginários e redes sociais em combustão permanente. Pode-se gostar ou não do estilo, mas ignorar sua força eleitoral seria erro primário. A advertência que circula nos bastidores é clara: “a menos que façam com ela o que fizeram com Artuzi”. Comparação pesada, porém pedagógica, num Estado que já tratou operações policiais como reality show.

Gianni Nogueira, por sua vez, oscila entre o institucional e o messiânico. Há quem a veja no Senado, há quem aposte na Assembleia. O detalhe é que, sem liberação celestial para cultos em frente à Papuda — algo tão provável quanto uma anistia escrita a lápis — o caminho mais concreto também parece passar pela Assembleia Legislativa. Gianni surfa na onda do bolsonarismo raiz, esse combustível político que dispensa propostas e se alimenta exclusivamente de guerra cultural.

O curioso é que, juntos ou separados, Isa, Botelho e Gianni desenham algo que os coronéis em fim de linha insistem em não enxergar: a disputa real já não é pelo gabinete principal, mas pela formação da próxima bancada. É ali que se começa a mandar. É ali que se constrói longevidade — ao menos enquanto Londres Machado, o cacique dos caciques, seguir no comando, ora na liderança, ora na presidência, como no atual governo Riedel.

No fundo, o que se vê não é apenas a prévia de uma eleição, mas mais um capítulo do velho ritual brasileiro: a troca gradual dos donos do curral. Mudam os nomes, as narrativas, os estilos. As bengalas continuam.

No fim das contas, Isa, Botelho e Gianni são muito mais do que potenciais candidatos a deputado estadual. São, cada um a seu modo, os adversários naturais de Marçal Filho no verdadeiro jogo em disputa: o comando da política douradense. A Assembleia pode ser apenas o ponto de partida formal. O destino é outro. Quem controlar essa próxima bancada não estará apenas legislando — estará disputando a hegemonia local, hoje concentrada nas mãos de um general sem farda, mas cada vez mais cercado por novos aspirantes ao poder real.

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