Há expressões que não aparecem nos dicionários, mas dizem mais sobre a política, e sobre as pessoas, do que muitos tratados acadêmicos. “Depilar coração peludo” é uma delas. Uma pérola, quando em tom de declaração afetuosa, dessas que desarmam até o mais calejado dos corações, como o do longevo insubordinado do jornalismo do Mato Grosso do Sul. Aliás, só ela para estabilizar meus batimentos cardíacos nesses tempos bicudos de crise hipertensiva.
A responsável por esse bálsamo, a vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira, senadora em potencial, deputada estadual se o Xandão proibir o culto pelo mito em frente a Papuda, ou, em último caso, em stand by como sucessora natural de Marçal Filho, não apenas na prefeitura, mas como futura liderança de referência da terra de seu Marcelino Pires. Sim, essa mesma Gianni que, nos últimos tempos, tem “apanhado” aqui no contrapontoMS. Não tanto quanto o marido — o inoxidável “Gordinho do Bolsonaro”, deputado Rodolfo Nogueira, mas o suficiente para não poder alegar surpresa.
Convém esclarecer: não se trata de pancadaria vulgar. O que o contrapontoMS pratica — e seguirá praticando — é a ironia fina, o bisturi verbal, o contraponto como método civilizado de crítica política. E, nesse jogo, Gianni tem sido, curiosamente, a mais amável entre os políticos com o insubordinado que vos escreve.
Abraços apertados, demonstrações públicas de apreço, telefones trocados, afagos verbais e, sobretudo, coerência entre discurso e prática cristã. A maior “ofensa” que já lhe fizemos foi chamá-la de beata — o que, convenhamos, no atual cenário político, está longe de ser xingamento. É quase um elogio teológico.
O ponto alto dessa convivência curiosa tem sido a narrativa, repetida com gosto em rodas de conversa e eventos públicos — como o da noite passada, na abertura das obras de reconstrução do Teatro Municipal de Dourados — sobre o trabalho hercúleo que Gianni diz estar tendo para “depilar o coração peludo” do insubordinado. A frase, dita com sorriso largo, é sempre acompanhada de olhares cúmplices de quem percebe que ali há mais do que cordialidade: há compreensão.
Depilar, no caso, não é mutilar. É retirar a aspereza. Amaciar a casca grossa. Tentar alcançar, sob o pelo eriçado da crítica, o coração de alguém que insiste em ser jornalista — isto é, alguém condenado a incomodar. Ossos do ofício.
Que essa experiência sirva de lição a Reinaldo Azambuja, Murilo Zauith, Roberto Razuk e tantos outros desafetos temporários do insubordinado. Não se trata de inimizade pessoal, mas de missão. O problema nunca foi o tom. Foi o conteúdo. O insubordinado não bate por prazer; escreve porque acredita que ainda há algo a cumprir nesta breve passagem terrena.
Se Gianni conseguirá, de fato, depilar esse coração peludo, o tempo dirá. Mas o gesto, cristão, político e humano, já diz muito sobre a aposta que se faz hoje suas possibilidades eleitorais. Na política, como na vida, quem entende que corações também precisam de cuidados costuma durar mais do que quem só sabe endurecer. E, se no fim das contas restar apenas um coração um pouco menos peludo, já terá valido a tentativa.
