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sábado, fevereiro 14, 2026

Um “alô você” ao coronelismo

Entre Kardec, o Bóson de Higgs e o “alô você” municipal, a ciência descobre planetas e a política continua achando que o universo cabe num palanque

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Para não dizerem que estou ficando enfadonho, monotemático e perigoso como um cronista que já sabe demais sobre azambujismo, coronelismo, petismo, bolsonarismo e outras doenças tropicais da política local, resolvi dar um tempo na fauna do poder e mergulhar, neste fim de semana, em algo bem mais misterioso e talvez até mais confiável: o espiritismo. Sim, o espiritismo. Porque, convenhamos, há sessões mediúnicas com menos encenação do que certas audiências públicas na Câmara Municipal ou na Assembleia Legislativa, e há incorporações bem mais sinceras do que alguns discursos de lançamento ou de inauguração de obras que duram menos que promessa de campanha. E foi assim, entre uma pergunta de Alan Kardec e resposta do além, que me deparei com a mais nova descoberta da ciência anunciada ao mundo na última sexta-feira: um novo planeta, parecido com a Terra, com chances de habitabilidade, com atmosfera promissora, com água possível e, o mais importante, provavelmente sem prefeitos fazendo “alô você” cósmico nem vereadores pedindo patrola para sitiócas interplanetárias.

O curioso é que essa notícia chegou exatamente quando eu lia Kardec dizendo, com aquela humildade que falta tanto em gabinete climatizado, lá sua Gênese, que o ser humano só consegue compreender uma fração minúscula da realidade, algo em torno de 5 ou 6% do que existe no Universo. Cinco por cento! Isso foi escrito há mais de 180 anos, quando nem existia Wi-Fi, rede social ou assessor de imprensa treinado para transformar qualquer caixa d’água de escola em “obra estruturante”. Pois bem: passaram-se quase dois séculos, veio telescópio espacial, veio acelerador de partículas, o tal Bóson de Higgs, aquela “partícula de Deus” — ou do diabo, dependendo do humor de quem está no púlpito ou no plenário — e eis que os cientistas chegaram à mesma conclusão que os espíritos já tinham repassado lá atrás: de tudo que existe no cosmos, nós só enxergamos 5%. O resto é matéria escura, energia escura, mistério escuro, ou seja, 95% do universo é invisível, desconhecido e inalcançável… exatamente como certos acordos políticos feitos na calada da noite.

Aí não tem como não fazer a comparação provocadora: Kardec ouviu milhares de espíritos para codificar uma visão do invisível; os cientistas ouviram milhares de colisões e dados estatísticos para confirmar a existência de algo que ninguém vê, mas que estrutura tudo. No fundo, ambos estavam fazendo a mesma coisa: tentando escutar o que não aparece. Só muda o aparelho. Um usa mediunidade, o outro usa acelerador de partículas. Um pergunta “por que existimos?”, o outro pergunta “como existimos?”, mas ambos terminam na mesma esquina cósmica onde está escrito: “vocês sabem muito pouco, meus filhos”.

E foi aí que, inevitavelmente, a política entrou pela porta dos fundos, como sempre entra. Porque se o universo é um iceberg e a humanidade só vê a pontinha, aqui no nosso Mato Grosso do Sul tem coronel que acha que enxerga o iceberg inteiro, que entende o cosmos completo, desde que o cosmos caiba dentro de uma secretaria, num gabinete do Tribunal de Contas, em uma emenda parlamentar ou numa licitação cultural de milhões para show sertanejo em praça pública enquanto falta dipirona no posto. O cosmos, para eles, é pequeno, domesticável e sempre orbitando em torno do próprio umbigo. E se alguém ousa dizer que existem outros planetas, outras realidades, outros modos de administrar, aí já ficam nervosos, como se o jornalista fosse um médium perigoso desmaterializando a “ordem natural das coisas”.

O deputado Geraldo Resende, por exemplo, já anda desconfiado até de que eu esteja apaixonado pelo “alô você” do prefeito Marçal Filho. Veja só a situação: eu passo semanas falando de coronelismo, mando umas farpas no azambujismo, dou umas cutucadas no bolsonarismo e no petismo, critico a pirotecnia administrativa da gestão municipal, quando sai mais fumaça que resultado, e ainda sou acusado de romance. Ora, meu caro amigo e deputado, se isso é paixão, então Kardec era apaixonado pelos espíritos, Einstein era apaixonado pela gravidade e Galileu estava num caso sério com Júpiter. Não, não tem amor. É só insubordinação mesmo.

Mas aí volto ao planeta recém-descoberto. Um mundo novo, distante, talvez habitável. E me pergunto: será que lá também existe gente jurando que o planeta deles é plano? Será que lá também existe bancada da bala cósmica? Será que também existe vereador intergaláctico ridiculamente enrolado em bandeira pedindo cargo para o primo? Será que existe prefeito fazendo live com filtro, dizendo “alô você, cidadão de TOI-715 b, estamos trabalhando”? Ou será que, por sorte evolutiva, aquelas criaturas já entenderam o que nós insistimos em não aceitar: que a arrogância é a maior treva do universo.

Porque no fim, tanto a ciência quanto o espiritismo concordam numa coisa essencial: o perigo não está no desconhecido, mas na soberba diante do pouco conhecido. A ciência avança nos 5% visíveis, a espiritualidade navega nos 95% invisíveis, e o jornalismo, esse coitado, tenta sobreviver no meio disso tudo, levando pancada de quem acha que o gabinete, mesmo que o paralelo, é o centro do cosmos. Talvez a humanidade ainda precise descobrir, mais do que novos planetas, um novo tipo de humildade. Porque se o universo se expande infinitamente, a ignorância de certos poderosos também parece não ter limites. E, cá entre nós, às vezes eu penso que o problema da Terra não é ser redonda ou plana… é que tem gente demais achando que ela gira em torno deles.

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