A ponta de uma bengala especial surge primeiro. Logo atrás, uma senhora de cabelos brancos. Avança calmamente em direção à esteira, segura de que irá alcançá-la. Usa óculos escuros. A monitora hesita: deve ajudá-la ou não?
Sentindo o chão com os “olhos” de sua bengala, em passos lentos, ela segue adiante com a firmeza de quem conhece o caminho. Tem dificuldades visuais recentes ou desde sempre? Certamente foi treinada para se orientar com o dispositivo de locomoção para deficientes visuais — instrumento que se tornou seus olhos, olhos para alcançar o mundo.
A bengala toca uma das esteiras da academia. Ela busca à direita, depois à esquerda, algo em que se apoiar. Não encontra. Com o auxílio da bengala, sobe. Avança mais um pouco até localizar as bordas laterais que procurava.
Coloca sua garrafa de água, de inox, no espaço à esquerda. Dobra a bengala e a acomoda no suporte à direita. Veste roupa esportiva: uma calça de moletom cinza.
Sua mão direita, ágil, encontra o botão de partida. A máquina desperta, iniciando o movimento com um leve som. Ela continua, ainda com a mesma mão, ajustando a esteira à atividade proposta: aperta o botão da velocidade, um pouco… mais um pouco… até alcançar o ritmo ideal.
Como sabe que é esse o ponto certo para fazer funcionar a máquina? Certamente alguém lhe tenha mostrado antes.
Por que escolher a esteira mecânica? Na rua, quem tem deficiência visual dificilmente pode correr com liberdade. Ali, basta caminhar, com o controle da velocidade nas mãos.
Estamos acostumados a ver — ao menos pela televisão — atletas correndo com guia, o futebol de cegos com bola de guizo, a natação com alguém avisando a borda da piscina. Judô, ciclismo em tandem, goalball, escalada adaptada, dança, yoga…
Mas esteira, nunca tinha visto. E é perfeita.
Na minha infância, pessoas com deficiência, sobretudo visual, eram deixadas à margem. No máximo, eram colocadas num canto da rua, sentadas com um copo ou outro objeto para receber esmolas.
É bom ver que muitas coisas mudaram.
E mudaram para melhor.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
