Inexplicavelmente — ou talvez explicavelmente demais — um texto de 2019 foi parar essa semana como um espírito sem repouso, na minha lista de transmissão em pleno 2026. Bastou isso para a audiência entrar em polvorosa. Teve quem falasse em déjà-vu. Teve quem jurasse que foi de propósito. Teve vereador que nunca conseguiu emplacar uma proposta minimamente digna de nota no ContrapontoMS e, por alguns minutos, sentiu aquele calorzinho no peito: “Agora chegou minha vez”. Chegaram até releases novos, apressados, como se a política também fosse um grupo de WhatsApp onde todo mundo quer aparecer na foto.
Se eu fosse um cronista menos desconfiado, um cidadão menos brasileiro, diria que foi apenas um erro técnico, um bug qualquer, um dedo escorregadio no teclado do destino. Mas no Brasil, meu caro leitor, bugs raramente são apenas bugs. Aqui, até o ordinário tem vocação para o sobrenatural. O texto de 2019 reapareceu na lista como um espírito inquieto batendo na mesa antes da sessão começar.
O texto era velho. Dezembro de 2019. E falava de quê? De articulação política, de Congresso, de emendas, de barganhas, de “toma lá dá cá”, de promessas milionárias e orçamento impositivo. Um retrato da República funcionando exatamente como sempre funcionou — com a diferença de que, naquela época, ainda havia a ingenuidade de chamar aquilo de “prova de fogo para 2020”. Era o governo Michel Temer.
O mais curioso é que o texto não parecia velho. Parecia publicado ontem. Mudaram os nomes — ministros passam, presidentes se alternam, partidos trocam de fantasia — mas o espírito da coisa permanece intacto. Emendas extras, cargos, lealdade comprada em prestações, contas impagáveis, promessas ficando no papel. O texto reapareceu porque, no fundo, nunca foi embora.
Foi aí que me ocorreu: talvez a política brasileira já tenha ultrapassado a ciência e entrado no terreno metafísico. Allan Kardec falava da reencarnação das almas. Aqui temos a reencarnação das práticas. O corpo muda, a legislatura troca, o partido se fantasia, mas o espírito do “toma lá dá cá” continua batendo ponto.
Em 2019, prometiam “mais Brasil, menos Brasília”. Em 2026, seguimos com mais Brasília e menos Brasil — só que com Wi-Fi melhor e comissões mais numerosas. O texto antigo voltou porque o país insiste em andar em círculos, preso naquele mesmo labirinto: o contribuinte do lado de fora, o Minotauro lá dentro, devorando pacientemente cada tentativa de extraordinário.
Aí tudo fez sentido. Porque se a curicaca observa tudo lá de cima, se o urutau vigia as noites às margens do Laranja Doce e se o Minotauro continua solto pelos corredores institucionais, a conclusão é simples: o ordinário está vivo. E não descansa. Ele reencarna. Muda de nome, troca de partido, faz selfie em sessão solene, mas permanece. É a única criatura realmente imortal deste país.
No fim, talvez a maior assombração nacional não seja um espírito do além. Seja essa política ordinária que morre em uma legislatura e renasce na outra, sem nunca pedir licença ao dicionário do Aurélio. E se um texto de 2019 reapareceu sozinho em 2026, não é bug. É só o Brasil sendo Brasil: uma eterna sessão ordinária.
E cá estamos, na sexta-feira que antecede a primeira sexta-feira 13 do ano. Quase um presságio. Quase um aviso. Porque se até textos antigos voltam do além para tentar dizer alguma coisa, imagine as práticas. Imagine as comissões. Imagine as emendas. Imagine as promessas. Tudo volta. Tudo circula. Tudo reaparece. Ordinariamente.
