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terça-feira, fevereiro 10, 2026

Aos catorze anos o amor já escreve em prosa                                 

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Eu trago-te nas mãos o esquecimento/ Das horas más que tens vivido, “Amor! […]  – Eu sou Aquela de quem tens saudade, /A Princesa do conto: “Era uma vez…”. (“Conto de Fadas”: Florbela Espanca).

Acabei de ler a trilogia “Profano Amor”, “Promessa Profana”, “Profano Desejo”, de autoria da jovem escritora-leitora Maria Eduarda dos Reis Machado. Trata-se de narrativa em prosa de um promissor talento que a autora vem conquistando após diversas experiências que sucederam este momento. Registre-se desde logo: eis aqui uma jovem garota de catorze anos de idade, proeza quase rara hoje em dia. Sua idade e os sonhos de então, irão reverberar por todas as páginas. Bem como sua convivência com a literatura desde muito cedo. Daí que o leitmotiv de sua narrativa deixe transparecer as preocupações e vivências em um enredo que envolve um grupo de colegas, geralmente da escola e os dilemas de suas idades. Conheci-a brevemente, notei que sua face lembrava a de Clarice Lispector. Quis saber o que ela costuma ler e falou-me de nomes ainda estranhos para mim: “O gato malhado e a andorinha sinhá”, “Meu pé de laranja lima”, Raphael Montes, Penélope Douglas, Holly Blach, Ali Hazelwood, e, claro, o insoldável nome de Clarice Lispector que eu lera etereamente no rosto de Maria Eduarda. 

O entrecho da narrativa, que daí deriva, deixa entrever, de modo geral, uma história proibida, desejos, ciúmes, dilemas emocionais e cenas com sensualidade – ainda que sutis. O que, a meu ver, cria uma ambiência mais para o público jovem adulto (YA) ou até adult. De caráter preponderante rebrilha o gênero em prosa poética, estando presente um certo lirismo, decerto da sua convivência com autores de poesia.

O livro como um todo é narrado em primeira pessoa, tendo como protagonista a jovem (adolescente?), cujo nome é Lola. Na esteira da autobiografia ficcional o nome de Lola surge repetidas vezes, como uma obsessão, talvez resultado das indagações da narradora diante do mundo que se descortina à sua frente, como no do protagonista de “Um pé de laranja lima”; este, um livro sentimental, como sói acontecer às personagens inquietas diante da descoberta da vida e do mundo.

O livro vem enfeixado em vinte e quatro capítulos. Frequentemente, a personagem Lola inicia o diálogo em cada capítulo. Pode-se notar que tudo gira ao sabor de seu ponto de vista, como um narrador onisciente que se projeta na mente dos demais e deles extrai sua avaliação e, assim, realizando a prospecção das interioridades das personagens que habitam seu imaginário. Nota-se assim que o tema fundamental da narrativa provém de um ambiente imaginário que somente a protagonista Lola tem acesso, como se agisse igual a um prestidigitador das consciências do grupo de personagens as quais ela dá voz. Enquanto contrasta os diálogos dentre os outros e observa seus comportamentos, a narradora constrói, ou reconstrói, as projeções das outras personagens. Muito de acordo com uma mente perspicaz, bem afeita à observação e análise dos discursos de outrem. Talvez o ofício do escritor não seja outro, senão a escuta da alma humana.

Em tudo e por tudo, resta sublinhar que a escrita da narradora protagonista, travestida de Maria Eduarda, é escorreita, com diálogos loquazes e inteligentes. O que nos leva a saudar e recomendar este livro ao público jovem e a todos os leitores de nossa geração. Todas as personagens têm nomes simbólicos e desempenham papel fundamental no espaço-tempo em que atuam.

Ademais, é de se louvar que jovens talentos continuem a surgir, não só no espaço geográfico de nossa literatura, mas sobretudo por fazerem brotar uma escrita para além das questões locais tão próprias das que têm urgido hoje em dia. A ambiência do universo de discurso de Maria Eduarda é resultado de sua imaginação, o que a torna, por si só, um ato de criação e justifica a publicação e sobretudo a leitura proveitosa para os leitores contemporâneos. Para mim, que tive o privilégio de ler o livro em primeira mão, restou a alegria de compartilhar com o público leitor uma escrita que brota em meio às reflexões dos dias de hoje. Salutar é constatar que as tecnologias e redes sociais não são empecilhos para novos talentos e que a literatura continue sendo veículo de transmissão do conhecimento e de aproximação de almas humanas. 

Paulo Sérgio Nolasco dos Santos – Prof. Dr. Titular em Literatura Comparada na UFGD e  membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras  

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