30.4 C
Dourados
segunda-feira, fevereiro 9, 2026

Uragano, o retorno!

Com gravações clandestinas, velhos operadores de volta ao tabuleiro e uma guerra eleitoral antecipada, Dourados revive fantasmas da Operação Uragano e acende o alerta máximo para os efeitos de 2026 no Mato Grosso do Sul

- Publicidade -

Valfrido Silva

No exato momento em que a mais recente pesquisa sobre as eleições de 2026 expõe números que ratificam previsões feitas por este insubordinado do jornalismo, com gráficos que lentamente começam a se inverter, uma guerra eleitoral antecipada em Dourados ameaça se transformar na pá de cal de diversos projetos políticos e abrir caminho para a maior zebra eleitoral da história recente de Mato Grosso do Sul. Algo talvez maior, inclusive, que a derrota do então todo-poderoso Pedro Pedrossian, ainda no primeiro turno de 1988, episódio que abriu caminho para a eleição do azarão Zeca do PT sobre Ricardo Bacha, no segundo turno. O que se desenha agora, porém, é diferente. Mais sujo. Mais subterrâneo. E, se não houver freios, com potencial devastador superior ao da Operação Uragano, deflagrada em 2010 — o maior escândalo de corrupção já registrado no Estado.

E afirmo isso com conhecimento de causa.

Tal como ocorreu naquela operação, fui novamente gravado. Clandestinamente. Não me perguntem a mando de quem. Mas, pelo descaramento do araponga da vez, não é difícil supor: os poderosos de sempre. Alguns deles ideólogos da própria Uragano, outros, condenados pela justiça dos homens e ainda tentando se esconder da justiça divina, empenhados em ressuscitar velhas práticas e velhos pupilos, muitos dos quais foram flagrados, à época, com a boca na botija e hoje voltaram a circular, infiltrados em diversos escalões do poder.

Como cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça, percebi o grampo a tempo e, já que a mesa estava posta, aproveitei para mandar alguns recados. Talvez numa tentativa, ainda que ingênua, de evitar uma nova hecatombe política na terra de Marcelino. Pelo que sei, não fui o único “privilegiado”. Colegas jornalistas, vereadores, deputados e até executivos de grandes empresas estão sendo vítimas do mesmo tipo de serviço sujo.

A diferença é que, em 2010, havia método. Eleandro Passaia, delator da Uragano, gravava com profissionalismo, sem que as vítimas percebessem. Hoje, o amadorismo impera: celulares em mesas de boteco, rodas de padaria, encontros fortuitos. E, pior, já não é apenas “um Passaia”. São dois lados. Ou vários. Cada trincheira com seus próprios arapongas.

Na Uragano, Passaia começou gravando a pedido do prefeito Ari Artuzi. Depois mudou de lado e passou a gravar o próprio Artuzi, já sob orientação da Polícia Federal. Agora, a diferença é brutal: os dois lados já entraram em campo gravando ao mesmo tempo.

As lojinhas paraguaias que vendem eletrônicos aos futuros X-9 voltaram a faturar. Os operadores de medições de obras podem até ter outros nomes, mas seguem a serviço dos mesmos esquemas. O que talvez salve, ou enterre de vez, alguns protagonistas, é que já não existem romaneios físicos de obras superfaturadas como aqueles foram levadas à Polícia Federal e publicadas em primeira mão pelo contrapontoMS, levando Artuzi & Cia. para a cadeia. Hoje, tudo passa pelo sistema. Pelo digital. Pelo algoritmo.

Ainda assim, muita gente vai entrar pelos canos, com a lama saída das tubulações podendo inundar até as aldeias. Os “mensalinhos” de ontem, travestidos de moral religiosa, hoje chegam em forma de maquetes, consultorias, contratos de “inteligência” e planilhas vazias e, pior, para manchar ainda mais o jornalismo-raiz, por meio de sites sem credibilidade e sem audiência, de aliados de uma minoria de apaniguados políticos.

Elementar, meu caro Watson. E a insistente repetição, aqui, da frase que frase apareceu pela primeira vez em 1929 no filme “O Retorno” de Sherlock Holmes, não é aleatória: se já estão gravando, é porque estão com o fiofó apertado. Ou porque precisam produzir provas para o amanhã. Ou achacar alguém que está incomodando hoje. Incômodo mútuo, claro, das partes em litígio.

Convém lembrar: a Operação Uragano não foi apenas um escândalo. Foi o fim da linha para uma geração que parecida promissora na política douradense, por extensão, um terremoto que sacudiu todo o Mato Grosso do Sul. Seus números seguem assombrosos até hoje. Em 1º de setembro de 2010, nove dos doze vereadores da Câmara Municipal foram presos. O prefeito Ari Artuzi, sua esposa e o vice-prefeito caíram juntos. Foram 29 mandados de prisão temporária, dezenas de conduções coercitivas e cerca de 60 denunciados ao longo do processo. A imagem de Artuzi contando maços de dinheiro virou símbolo nacional.

Foi o único caso no Brasil em que quase um poder municipal inteiro foi decapitado de uma só vez. Dourados ficou sem comando. Houve intervenção judicial. Eleição extemporânea. Um vazio institucional absoluto. E é justamente essa memória que deveria acender todos os alertas agora.

Porque o DNA da Uragano nunca foi eliminado. Ele apenas se sofisticou. O que antes era lixo e merenda, hoje migrou para a saúde terceirizada, para serviços de “inteligência”, para contratos milionários que entregam pouco — ou nada. Muitos dos personagens daquela história voltaram. Alguns como consultores. Outros como operadores de bastidores.

Se essa guerra que começa em Dourados seguir sem freios, talvez o governo estadual precise ir além da análise política e começar a repensar algo mais concreto: a capacidade do sistema penitenciário. Porque, se não houver mediação internacional — talvez só o Trump para negociar essa paz improvável — pode faltar cadeia em Dourados.

A saracura já gritou. E quem conhece o brejo sabe: quando ela canta, não anuncia só chuva. Anuncia que o teto da máquina, de governar, de fraudar, de fingir normalidade — está prestes a desabar.

E vou logo avisando. Essa é só a ponta do iceberg.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-