Valfrido Silva
Há um erro recorrente — e conveniente — na leitura que se faz da Operação Uragano: tratá-la como um ponto fora da curva. Não foi. A Uragano não foi um acidente institucional, foi um diagnóstico. E, como todo diagnóstico ignorado, a doença voltou. Mais resistente. Mais esperta. Mais cínica.
O que começa a se desenhar em Dourados, neste início nada inocente de pré-campanha para 2026, não é apenas uma disputa antecipada por poder. É a entrada definitiva da política em modo sobrevivência. Quando isso acontece, o debate público some, a ideia de projeto vira piada e o que resta é o vale-tudo — inclusive o subterrâneo.
Gravações clandestinas não surgem do nada. Elas aparecem quando a confiança acabou, quando os acordos ficaram instáveis e quando alguém percebeu que pode ser descartado a qualquer momento. Quem grava não está pensando em justiça; está pensando em seguro de vida político. Foi assim em 2010, quando Eleandro Passaia, de secretário de governo e homem da mais alta confiança de Ari Artuzi, mudou de lado. Num passe de mágica que até hoje dá muito o que falar. É a história que insiste em repetir.
Na Uragano, muitos acreditaram que o problema estava nos nomes. Prenderam o prefeito, vice, secretários, vereadores e empresários, os mais renomados da cidade. Houve a catarse pública. O aplauso moral. A falsa sensação de limpeza. Mas o método ficou. E, pior, ficou impune o suficiente para ensinar.
Hoje, o sistema é outro — e exatamente por isso mais perigoso. Saiu o romaneio de obra superfaturada, entrou o contrato inteligente. Saiu o envelope, entrou a consultoria. Saiu o intermediário tosco, entrou o “especialista”. Tudo mais limpo na forma, tudo mais opaco no conteúdo. A corrupção não acabou: terceirizou-se.
E aqui vai a parte que incomoda: muitos personagens daquela história jamais deixaram o jogo. Apenas trocaram de função. Alguns viraram conselheiros. Outros operadores discretos. Outros, mais audaciosos, reapareceram reabilitados pela memória curta e pela lentidão da Justiça. A política brasileira não pune o passado; recicla-o.
É por isso que Dourados volta a ser epicentro. Não por azar, mas por método. Onde o orçamento é grande, o controle é frágil e o eleitorado é volátil, a tentação é maior. E onde há tentação demais, a guerra começa cedo. Muito cedo.
Não se trata apenas de eleição municipal. Trata-se de 2026. Trata-se de quem chega inteiro, quem chega viável e quem chega sem passivo explosivo ao tabuleiro estadual. Cada gravação que surge agora não mira o presente, mira o futuro.
E, sim, digo sem rodeios: se essa guerra seguir sem freios, o problema deixará de ser apenas político. Será administrativo. Institucional. Talvez até logístico. O Estado precisará se preocupar com a estrutura para administrar o colapso que costuma vir depois que o furacão passa. Em 2010, faltou comando. Dessa vez, pode faltar cadeia.
A saracura canta de novo. E não é folclore. É aviso. Quem já viu a Uragano de perto sabe: quando o vento muda, ninguém controla mais a direção dos destroços.
Esta é apenas a primeira suíte. As próximas não vão tratar de se. Vão tratar de quem — e de quando.
