Mensagens trocadas em 2019 entre Steve Bannon, ex-assessor da Casa Branca do presidente Donald Trump, e o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein revelaram que o estrategista discutiu formas de enfraquecer o Papa Francisco, afirmando por e-mail que esperava “derrubar” o Pontífice. O conteúdo faz parte de um amplo conjunto de arquivos divulgados em janeiro pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ, na sigla em inglês).
Bannon era fortemente crítico de Francisco, a quem via como um oponente de sua visão “soberanista”, uma vertente do populismo nacionalista que se espalhou pela Europa em 2018 e 2019. Os diálogos com Epstein indicam que, após deixar o primeiro governo Trump (2017-2021), Bannon buscou a aproximação do financista, que morreria meses depois, em meio a suas tentativas de minar a autoridade do então líder da Igreja Católica.
Segundo os documentos, Epstein teria auxiliado Bannon na articulação de seu movimento político. Em junho de 2019, o estrategista escreveu: “Vamos derrubar [o Papa] Francisco. Os Clinton, Xi, Francisco, UE (União Europeia). Vamos lá, irmão”. Um ano antes, Bannon havia descrito o Pontífice como alguém “abaixo do desprezo”, acusando-o de se alinhar às “elites globalistas”. Ele também teria instado Matteo Salvini, hoje vice-primeiro-ministro da Itália, a “atacar” o jesuíta argentino.
Questão central
Roma e o Vaticano ocupam lugar central na estratégia política de Bannon. Quando dirigia o Breitbart News, ele abriu um escritório em Roma. Mais tarde, envolveu-se em iniciativas para criar uma escola de formação política voltada à defesa de valores judaico-cristãos nas proximidades da capital italiana, conhecida como Cidade Eterna. Francisco, por sua vez, se posicionava como contraponto à visão de mundo associada ao trumpismo, criticando o nacionalismo e fazendo da defesa dos migrantes uma marca de seu pontificado.
Os arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça mostram que Bannon voltou a contatar Epstein em diferentes ocasiões enquanto buscava formas de atingir o líder da Igreja. Nas mensagens, Bannon cita o livro “No armário do Vaticano: Poder, hipocrisia e homossexualidade”, publicado em 2019 pelo jornalista francês Frédéric Martel. A obra examina práticas de sigilo e acusa hipocrisia nos altos escalões da Igreja, afirmando que 80% do clero que trabalha no Vaticano é gay e descrevendo como muitos mantêm sua sexualidade em segredo.
O tema da homossexualidade na Igreja tornou-se ponto de tensão para setores conservadores, que o associam a uma crise estrutural na instituição e, em alguns casos, aos escândalos de abuso sexual. Especialistas e pesquisadores, no entanto, consideram cientificamente incorreta qualquer associação entre orientação sexual e abuso.
Após se reunir com Martel em Paris, em um hotel cinco estrelas, Bannon demonstrou interesse em adaptar o livro para o cinema. Nas mensagens, ele sugere que Epstein poderia ser o produtor executivo do projeto.
Não há, porém, indicação nos arquivos sobre a seriedade da proposta. Epstein não comenta a oferta nas mensagens divulgadas e pergunta a Bannon sobre filmagens envolvendo o filósofo e intelectual público Noam Chomsky. Martel afirmou que, ao se encontrar com Bannon, informou que não poderia firmar acordo para adaptação, pois os direitos cinematográficos pertenciam aos seus editores e já haviam sido negociados com outra empresa. À CNN, o escritor disse acreditar que Bannon queria “instrumentalizar” o livro contra o Papa Francisco.
Mensagens provocativas
Os documentos mostram ainda que, em 1º de abril de 2019, Epstein enviou a si mesmo um e-mail com o assunto “No Armário do Vaticano”. Mais tarde, encaminhou a Bannon um artigo intitulado “Papa Francisco ou Steve Bannon? Os católicos devem escolher”, ao que o estrategista respondeu: “Escolha fácil”. Biógrafo do Pontífice argentino, Austen Ivereigh afirmou à CNN americana que Bannon acreditava poder usar o livro para constranger e enfraquecer Francisco.
— Acho que ele avaliou muito mal a natureza do livro. E do Papa Francisco — disse.
Bannon trocava mensagens com Epstein vários anos após a condenação do financista por crimes sexuais contra menores, em 2008, e pouco antes de ser preso por tráfico sexual de menores, em 2019 — período que coincidiu com uma forte pressão interna contra o Papa. Naquela época, o arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio apostólico nos EUA, divulgou um dossiê acusando o Pontífice de falhar ao lidar com abusos cometidos pelo cardeal Theodore McCarrick. Posteriormente, no entanto, uma investigação do Vaticano isentou Francisco.
— O que essas mensagens revelam não é apenas hostilidade em relação a um pontífice, mas uma tentativa mais profunda de instrumentalizar a fé como arma, precisamente a tentação que ele buscava desarmar — disse à CNN o padre Antonio Spadaro, autoridade do Vaticano que colaborou de perto com Francisco.
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A iniciativa de transformar o livro de Martel em filme também gerou atritos no campo conservador aliado a Bannon. O cardeal Raymond Burke, crítico de Francisco, afirmou: “Não sou de modo algum da opinião de que o livro deva ser transformado em filme.” Burke foi retratado de maneira desfavorável na obra de Martel. O rompimento com Bannon ocorreu quando o cardeal cortou laços com o instituto conservador Dignitatis Humanae, fundado por Benjamin Harnwell, assessor político britânico e aliado de Bannon radicado na Itália.
Em outro trecho dos documentos, Epstein brinca com o irmão, Mark, sobre convidar o Papa para sua residência para uma “massagem” durante a visita papal aos Estados Unidos, em 2015. Três anos depois, escreveu a Bannon dizendo que tentava “organizar uma viagem para o Papa ao Oriente Médio”, acrescentando: “manchete: tolerância”. Quando Bannon compartilhou um artigo sobre o Vaticano condenando o “nacionalismo populista”, Epstein citou o poema “Paraíso Perdido, de John Milton, escrito após a expulsão de Satanás do céu.
“Melhor reinar no Inferno do que servir no Céu”, disse Epstein a Bannon.
O Globo, com agências internacionais — Washington
