Após a decisão da Suprema Corte dos EUA de suspender boa parte do tarifaço do presidente Donald Trump, o clima de cautela ainda persiste entre o empresariado. Muitos setores econômicos comemoram a suspensão, mas há dúvidas sobre se a decisão realmente resultará na retomada das exportações para os EUA. E como isso se dará nas próximas semanas.
No primeiro momento, não estava claro nem se a decisão se aplicava apenas à tarifa de 10% anunciada em abril, junto com todos os países, ou se valia também para o adicional de 40%, específico sobre o Brasil, em vigor desde agosto. Na interpretação do governo federal, a suspensão se aplica a tudo.
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio do escritório Barral Parente Pinheiro Advogados, uma maior clareza virá apenas quando a decisão da Suprema Corte for traduzida em normas da CBP, a agência federal dos EUA responsável pela aduana. Antes disso, é difícil estimar os efeitos práticos, “até porque o Trump já indicou que vai manter algumas tarifas com base em outras normas do Código de Comércio”.
— Não é imediata a decisão da Suprema Corte. Vai haver uma norma da CBP para falar como será a suspensão — disse Barral.
Quando Trump impôs tarifas extras sobre o Brasil, em abril e depois em julho, economistas adiantaram que os efeitos na economia tenderiam a ser relativamente pequenos. Tanto porque a economia brasileira exporta relativamente pouco quanto por causa do que exporta — principalmente matérias-primas, como grãos, carnes, minério de ferro e petróleo, que dependem menos do mercado americano.
Os dados da balança comercial confirmaram os efeitos relativamente modestos, mas isso não quer dizer que não houve perdas. Alguns setores que fogem à regra nacional de baixa competitividade e são exportadores, com destaque para a indústria, têm nos EUA um mercado importante.
É o caso de determinados nichos da indústria de maquinário, da indústria siderúrgica, da indústria aeronáutica, da indústria de madeira processada, da indústria da pesca e da indústria calçadista.
Ao longo de 2025, os efeitos do tarifaço variaram conforme atividades e firmas. Alguns foram logo isentos, uns respiraram aliviados no fim de novembro — quando novo decreto da Casa Branca retirou a sobretaxa de 40% sobre 238 produtos brasileiros, a maioria alimentos — e outros seguiram até ontem com a tarifa somada de 50%.
Fabricantes de máquinas e equipamentos comemoram
Inserida no último caso, o setor de máquinas e equipamentos comemorou a decisão da Suprema Corte, mas também ressaltou as dúvidas.
— Com o fim do tarifaço, nossas expectativas mudam. A gente pode pensar até num crescimento da ordem de 10% (em 2026), que foi o que nós perdemos o ano passado — afirmou, em vídeo, José Velloso, presidente da Abimaq, que representa fabricantes de máquinas e equipamentos, alertando que, no médio prazo, as tarifas poderiam acabar elevadas novamente. — Por isso, é importante uma boa negociação para evitar qualquer tarifação extra para os produtos brasileiros.
Outra que ainda estava sob os 50% de tarifas, a indústria da pesca tinha nos EUA um importante mercado. Por isso, segundo Eduardo Lobo, presidente da Abipesca, associação que representa a indústria da pesca nacional, a perspectiva é positiva mesmo que o governo Trump retome uma taxa de 10%.
— Seria sair de 50% e morrer em 10%. Está bom — disse Lobo, lembrando que, nesse cenário, Trump já “sairia ganhando”, pois, até 2024, o pescado vendido pelo Brasil aos EUA era totalmente isento de tarifas.
Indústria calçadista recomenda cautela
A indústria calçadista, que exporta tipicamente em torno de 15% da produção nacional, tinha no mercado americano um destino importante. Por isso, mantida a tarifa somada de 50% sobre as vendas para os EUA, a Abicalçados, associação de fabricantes, estimava uma queda de 15% nas exportações deste ano. A entidade viu a decisão da Suprema Corte como “positiva”, mas recomendou “cautela”.
“Estamos aguardando mais informações sobre os desdobramentos operacionais da decisão e na espera da publicação de nova Ordem Executiva após o anúncio de uma tarifa adicional global de 10%”, disse o presidente da Abicalçados, em nota.
De longe uma das mais afetadas pelo tarifaço, a indústria da madeira processada preferiu nem se manifestar. A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) informou ontem que ainda estava avaliando os efeitos da decisão da Suprema Corte americana.
Ações da Embraer sobem
A fabricante de aviões Embraer — os jatos regionais da brasileira, líder global desse nicho, têm nos EUA seu maior mercado — foi beneficiada por exceções, mas seguia prejudicada com a tarifa de 10% aplicada desde abril. Procurada, a empresa não quis comentar a decisão da Suprema Corte americana. Na sexta-feira, as ações da companhia na Bolsa fecharam em alta de 1,14%, cotadas a R$ 95,71.
A Associação Brasileira das indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) também não quis comentar a suspensão do tarifaço americano. Em novembro passado, o setor de carnes entrou na lista de exceções da Casa Branca. No geral, as exportações de carne foram redirecionadas para outros países.
A Firjan, que representa a indústria do Rio, chamou a atenção para a importância de se observar os prazos para a retiradas das tarifas. Já a Fiesp ressaltou que Trump também citou ontem a Seção 301 da Lei de Comércio americana, que prevê investigações sobre parceiros comerciais.
Em nota, lembrou que o Brasil já está sob investigação desde julho de 2025 e, por issso, “os produtos brasileiros poderão ser atingidos por novas sobretaxas muito antes de nossos concorrentes internacionais”.
Fora da indústria, na fruticultura, a decisão da Suprema Corte americana foi recebida com entusiasmo pelos exportadores. A Abrafrutas, que representa os produtores, lembrou que a uva, destaque na pauta de exportações de frutas, seguia com taxa de 50% para os EUA. E disse, em nota, que segue atuando de forma técnica e diplomática, em diálogo com autoridades brasileiras e parceiros internacionais, para defender condições mais equilibradas de acesso ao mercado americano.
Também no setor agrícola, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) informou que está avaliando os desdobramentos jurídicos da decisão da Suprema Corte americana e mantém contato com seus pares nos EUA para avaliar o cenário que se desenvolverá.
O tarifaço americano virou o mercado global de café de cabeça para baixo, ao interromper os fluxos do maior produtor do mundo, o Brasil, para o maior consumidor, os EUA. Em novembro, a Casa Branca acabaria anunciando a retirada total das sobretaxas sobre o café brasileiro não beneficiado — mas o café solúvel seguiu com 50%.
Em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) avaliou que a suspensão de boa parte do tarifaço reforça a segurança jurídica e o respeito às competências legais nas relações comerciais internacionais.
Vinicius Neder e João Sorima Neto/O Globo — Rio e São Paulo
