27.3 C
Dourados
terça-feira, fevereiro 24, 2026

O clã Bolsonaro em pé de guerra

Acusações de “amnésia”, provocações nas redes e divergências sobre o controle das candidaturas escancaram crise interna no bolsonarismo

- Publicidade -

Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) intensifica os movimentos para se consolidar rumo à campanha presidencial, familiares e outras figuras do universo bolsonarista divergem entre si, trocam farpas em público e se provocam com indiretas nas redes sociais. O novo cardápio de intrigas conta com dois eixos: críticas à suposta omissão de nomes como Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira na candidatura de Flávio por parte de Eduardo Bolsonaro e conflitos sobre o papel do PL na definição de palanques estaduais — o último deles envolvendo Carlos e o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.

O episódio mais ácido dos últimos dias teve Eduardo como protagonista. Dos Estados Unidos, onde está há um ano, o ex-deputado federal disse em entrevista ao SBT News que a madrasta e Nikolas não estão se envolvendo com afinco na pré-campanha do irmão. Alegou que os dois estariam jogando “o mesmo jogo” e teriam “amnésia”.

— Eu, pelo menos, não vi nenhum apoio da Michelle, nenhum post a favor do Flávio. Ela compartilha o Nikolas a toda hora. Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Você vê um lado a lado, compartilha o outro e se apoia na rede social. Estão com amnésia, talvez, não sei por qual motivo — afirmou.

Cardápio da discórdia

No sábado, Michelle publicou no Instagram um registro da banana frita que levaria para o marido. Aos olhos de observadores das rixas familiares, foi uma provocação a Eduardo, conhecido pejorativamente como “bananinha”.

Como resposta, o enteado compartilhou uma publicação no X de um apoiador que, ao reproduzir uma foto do ex-deputado com Flávio nos Estados Unidos, rebateu a mulher de Bolsonaro: “Continuem fritando banana enquanto o Flávio e o Eduardo estão trabalhando duro para resgatar o país”.

Também no sábado, Nikolas visitou Bolsonaro por cerca de duas horas na Papudinha e, na saída, foi perguntado sobre as alfinetadas de Eduardo.

— Primeiro, eu discordo que eu tenha amnésia e que a Michelle tenha amnésia. Eu me lembro muito bem de todos os anos que eu fui atacado injustamente — disse o deputado, que também comentou que está “acostumado” a ser criticado por Eduardo. — Bater em mim eu já estou acostumado. Já tem mais de três anos que eles estão aí nessa saga. Mas, sabe, deixa a Michelle viver o calvário dela. Eu acho que o Eduardo não está bem — completou.

Na segunda, até a mulher de Eduardo, Heloísa, que não é envolvida no dia a dia partidário, entrou na discussão. Em publicação feita, segundo ela, sem o marido saber, reconheceu que o filho de Bolsonaro “não está bem”, mas complementou: “É humano, carrega uma cobrança e um peso absurdo nas costas, além da dor da saudade”.

Ao criticar a madrasta, Eduardo expôs uma insatisfação que tem como pano de fundo a atuação de Michelle em prol de aliados e em descompasso com o plano nacional de Flávio. Nos estados, por exemplo, a ex-primeira-dama interveio em três locais para viabilizar candidaturas de seu gosto, na contramão de costuras partidárias que estavam em andamento.

Em Santa Catarina, trabalhou para viabilizar a deputada Caroline de Toni, do PL, ao Senado, o que irritou o PP do senador Esperidião Amin, postulante à reeleição que buscava um acordo com o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro. O PL já terá por lá a candidatura do ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro.

No Distrito Federal, interferiu na ideia do bolsonarismo de ter o governador Ibaneis Rocha (MDB) ao Senado, ao incentivar o lançamento da deputada Bia Kicis (PL) junto com ela própria na chapa. Já no Ceará, colocou-se publicamente contra uma aliança — defendida por Flávio — com Ciro Gomes, recém-filiado ao PSDB para tentar voltar ao governo cearense numa frente anti-PT.

Outro movimento da ex-primeira-dama se deu em parceria com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que viu a ideia de concorrer à Presidência minguar — Michelle era cotada para a vice em sua chapa e, portanto, acabou sendo diretamente afetada pelo surgimento da candidatura de Flávio. A atuação dos dois junto a ministros do Supremo Tribunal Federal foi considerada decisiva para conseguir a transferência do ex-presidente para a Papudinha, onde tem melhores condições. Eles tentam agora transferi-lo para a prisão domiciliar.

Presidenciável reage

Os embates internos se dão num momento em que Flávio está embalado pela melhora em pesquisas eleitorais, apesar de ainda precisar desatar nós dentro da própria família e do bolsonarismo.

Na segunda-feira, em meio aos embates, Flávio foi às redes. “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição”, escreveu o senador.

Além das brigas relacionadas à campanha de Flávio, um embate entre Carlos e Valdemar evidenciou a falta de entendimento sobre o papel de cada ala do partido no planejamento eleitoral. Depois de visitar o pai na prisão, o pré-candidato ao Senado indicou que Bolsonaro prepara “uma lista de pré-candidatos ao Senado, aos governos e a outras participações políticas igualmente relevantes”.

A afirmação desagradou o dirigente. Segundo Valdemar, a responsável por definir as candidaturas a governos estaduais é a direção da sigla.

— Debatemos tudo, mas o Senado é o Bolsonaro que indica. Sempre foi. Nós indicamos os governadores. Todos nós damos palpites em tudo. É normal. Sempre ouvimos nossos parceiros — apontou em entrevista ao Poder360.

Carlos respondeu.

“A fala não foi minha, foi do (ex-)presidente Jair Bolsonaro e ninguém disse que não conversamos com ninguém e que ninguém poderia indicar governadores”, escreveu. “Creio que o PL poderia dar uma força inclusive em outras situações. Me parece que as coisas estão meio desencontradas sem querer querendo”.

Os projetos políticos de cada um

  • Flávio – O senador conseguiu se viabilizar como presidenciável depois de uma visita ao pai na cadeia. Bolsonaro chegou a fazer uma carta oficializando a pré-candidatura do filho “zero um”.
  • Michelle – Antes considerada uma possível candidata ao Planalto, ela chegou a ser cotada para o posto de vice na eventual chapa de Tarcísio, mas hoje é apontada como candidata ao Senado pelo DF.
  • Carlos – Ex-vereador no Rio por sucessivos mandatos desde 2001, o filho “zero dois” de Jair Bolsonaro mudou o domicílio eleitoral para Santa Catarina, onde tentará se eleger para o Senado.
  • Eduardo – Nos EUA há cerca de um ano, ele perdeu o mandato na Câmara por excesso de faltas. Era cotado para o Senado em SP, mas a permanência nos EUA, assolado por investigações, o inviabilizou.
  • Jair Renan – Vereador em Balneário Camboriú (SC), o filho mais novo de Bolsonaro entre os que têm vida pública, será candidato a deputado federal por Santa Catarina, reduto bolsonarista.

Valdemar defende mulher na vice e diz que Braga Netto foi um ‘erro’

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que a escolha do general Braga Netto como vice de Jair Bolsonaro em 2022 foi um “erro” e que ele deveria ter colocado uma mulher no posto para angariar o voto feminino. Agora, Valdemar defende que Flávio Bolsonaro (PL) tenha como vice a senadora Tereza Cristina (PP-MS) ou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) — ainda que o mineiro afirme que pretende concorrer ao Planalto.

— Nós não podemos perder os votos que nós perdemos no passado. O Bolsonaro quis pôr como vice o Braga Netto, que é um homem do bem, decente, correto, mas que não dava um voto para ele — disse, em evento do grupo Esfera Brasil. (Hyndara Freitas)

Caio Sartori  e Yago Godoy/O Globo

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-