Registros feitos pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante reuniões na sede do PL indicam a tentativa do partido de escantear o vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), na corrida pela sucessão estadual, busca por espaço em São Paulo, além de observações sobre disputas em diferentes regiões do país. Escolhido pelo governador Romeu Zema (Novo) como seu sucessor e apoiado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), Simões é descrito, nos apontamentos, como um nome que “puxa para baixo” o projeto presidencial do grupo. A expressão sugere preocupação direta com o impacto do desempenho estadual sobre a campanha nacional, em um estado considerado decisivo na corrida ao Palácio do Planalto.
O documento que trata do plano eleitoral foi deixado em uma sala após reunião do PL para tratar de palanques. Depois da conversa, profissionais de imprensa que estavam no local encontraram as anotações e fotografaram o conteúdo deixado por Flávio. As páginas apresentam um panorama das articulações e sinalizam, por exemplo, a movimentação para emplacar o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL), no lugar de Felício Ramuth (PSD), atual vice de Tarcísio de Freitas (Republicanos). No alto do documento, o senador anotou: “ligar Tarcísio”.
Flávio afirmou que os registros não expressam necessariamente sua posição pessoal e refletem “sugestões” recebidas ao longo das conversas.
Cifrão e o vice em SP
Nas anotações, o nome de Ramuth é vinculado ao símbolo de cifrão ($). Ramuth é investigado em Andorra, país europeu com apenas 86 mil habitantes situado nos Pirineus, entre a França e a Espanha, sob a suspeita de lavagem de dinheiro, segundo diligência conduzida pelo tribunal local. Ele afirma que os valores são lícitos e declarados à Receita Federal no Brasil.
Após a revelação, Ramuth, ex-prefeito de São José dos Campos e atual vice de Tarcísio, passou a enfrentar questionamentos que fragilizaram sua permanência na chapa. O episódio abriu espaço para pressão interna do PL pela substituição do vice na chapa do governador, ampliando o peso da legenda no principal colégio eleitoral do país. André do Prado, deputado estadual e aliado do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, é visto como nome capaz de garantir maior controle partidário sobre o palanque paulista, considerado decisivo para a viabilidade da candidatura presidencial bolsonarista.
O documento ainda coloca o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na lista de cotados ao Senado, identificado pela sigla “EB”. O irmão do senador perdeu o mandato na Câmara após se mudar para os EUA e ser cassado por faltas. Apesar da anotação, o próprio Flávio colocou em dúvida a viabilidade de uma candidatura do irmão. O grupo, segundo ele, realiza pesquisas para avaliar o melhor caminho para Eduardo.
— Se ele perde o mandato por falta, como é que ele vai explicar para o eleitor que vai se eleger, tomar falta e perder o mandato também? — questionou o senador.
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Na parte dedicada a Minas, a frase “me puxa para baixo” aparece ao lado de Simões. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, surge como alternativa por “conversar” com Nikolas, uma das principais lideranças do bolsonarismo no estado. Roscoe é visto por setores do partido como um nome com trânsito no empresariado e potencial de ampliar alianças além do núcleo ideológico.
Minas ocupa papel central no cálculo eleitoral. Segundo maior colégio do país, costuma funcionar como termômetro da disputa nacional. O cenário local tende a se nacionalizar em 2026: o senador Rodrigo Pacheco (PSD) é tratado nos bastidores como provável candidato apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto Cleitinho (Republicanos) aparece competitivo no campo conservador. Nesse contexto, a avaliação registrada indica receio de que um nome considerado pouco competitivo comprometa o palanque presidencial no estado.
A movimentação também revela potencial tensão com Zema, que já sinalizou apoio a Simões. Ao mencionar uma alternativa ligada ao setor produtivo e articulada com Nikolas, o PL demonstra intenção de influenciar diretamente a definição do candidato em Minas, e não apenas aderir ao desenho do governador.

Em outra página, ao lado do nome do deputado Marcos Pollon (PL-MS), está registrado: “pediu 15 mi p/ não ser candidato”. Pollon negou ter feito qualquer solicitação nesse sentido. A anotação aparece em meio a avaliações sobre pesquisas e viabilidade local, indicando que a direção nacional acompanha de perto disputas estratégicas. Flávio afirmou que os registros foram feitos por ele durante reuniões e que não são decisões consolidadas.
— Ontem tive várias reuniões para falar de vários estados e anotava no papel. Em algum momento, algum coleguinha de vocês tirou foto das minhas anotações, mas não eram opiniões minhas, eram sugestões de pessoas — disse, contestando o trecho sobre Pollon:
— Uma pessoa que conversou comigo disse que ele pediu R$ 15 milhões, mas isso nunca aconteceu.
Em entrevista na véspera, o senador declarou que as composições estaduais vêm sendo discutidas “há mais de um ano” e que nenhuma decisão é tornada pública sem o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, o PL poderá lançar até 11 candidaturas próprias aos governos estaduais e, diferentemente de 2022, haverá maior envolvimento da direção nacional na definição dos palanques:
— Em 2022 o presidente não se envolveu em grande parte das composições. Esse ano está sendo diferente.
‘PL na chapa’
No Nordeste, as anotações indicam uma tentativa do PL de buscar alianças pragmáticas. Na Bahia, por exemplo, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) aparece como opção da disputa ao governo estadual, com uma anotação feita à mão ao lado: “Conversar 1º / depois tratamos do palanque completo”.
Já no Ceará, o documento indica o controvertido apoio a Ciro Gomes (PSDB) ao governo estadual e traz a indicação “PL na chapa”, com uma lista de nomes que poderiam concorrer ao Senado que inclui Alcides Fernandes (PL), Priscila Costa (PL) e Roberto Cláudio (União Brasil). A movimentação, no entanto, ocorre após Michelle Bolsonaro ter criticado a composição com Ciro.
Em relação ao prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC (PL), cotado ao Senado ou ao governo de Alagoas, Flávio coloca prazo para uma conversa: 15 de março. Também listado como opção ao governo, o nome do deputado Alfredo Gaspar (União Brasil-AL) vem com uma anotação feita à mão: “Único que pedirá voto p/ mim”. Ao Senado, aparece Marina Cândia, mulher de JHC. Também consta uma interrogação depois do nome do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), pré-candidato ao Senado.
O mapa traçado pelo PL ainda traz anotações de Flávio em outros estados, como no Piauí. Não indica candidato próprio ao governo, mas lista para o Senado o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o dirigente local do PL, Tiago Junqueira. No Rio Grande do Sul, o “ok” ao lado da chapa indica cenário mais avançado, com o deputado Luciano Zucco (PL-RJ) ao governo e os deputados Sanderson (PL-RS) e Marcel van Hattem (Novo) ao Senado.
Camila Turtelli/O Glbo — Brasília
