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quinta-feira, fevereiro 26, 2026

O Resgate na Imensidão

Em uma narrativa sensível que mescla a crueza da realidade sul-mato-grossense com o lirismo da infância, a escritora e professora Gicelma Chacarosqui nos conduz por uma jornada de queda e redenção. "O Resgate na Imensidão" não é apenas o relato de um acidente geográfico, mas um tributo à presença eterna daqueles que nos estendem a mão quando o mundo parece desaparecer sob nossos pés.

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Rua estreita, sinuosa, com uma camada de terra batida que se estende por toda a sua imensidão. Chão irregular, com buracos e pedras soltas que fazem os carros — poucos carros —, carroças e bicicletas ziguezaguearem para evitar os obstáculos. As casas que margeiam a rua são simples, com fachadas caiadas de cores desbotadas pelo sol e telhados de telhas de barro que parecem se inclinar para o lado.

À medida que chegamos perto do fim da rua, o chão começa a se abrir em um grande buracão, como se a terra tivesse sido engolida por uma boca gigante. Um buraco profundo e largo acompanha a rua como se fosse um fosso. Mas, em vez de ser um obstáculo intransponível, em cada esquina há uma escadinha de terra que desce para o fundo do buraco e outra que sobe para o outro lado. É uma passagem estreita e escorregadia, mas é a única maneira de atravessar.

A escadinha é esculpida, feita de degraus de terra compactada, com raízes de árvores e pedras que servem de apoio. É preciso ter cuidado para não escorregar e cair no fundo do buraco, que parece ser ainda mais profundo do que a altura de uma pessoa. Mas, com cuidado, é possível atravessar e continuar a jornada pela rua, que parece se estender para além do buracão, como se nada tivesse acontecido.

Naquele dia, fiquei ali mirando o buraco, como que encantada por sua imensidão! Nem me dei conta do solavanco que me fez voar… Caí, e o mundo pareceu desaparecer. O chão sumiu sob meus pés e me senti voando no ar, sem controle. O buraco parecia me engolir infinitamente; eu estava caindo, caindo, caindo… voando, voando, mergulhando na imensidão!

O ar rugia em meus ouvidos e eu sentia o estômago subir à garganta. Tentei gritar, mas a voz ficou presa. A escuridão era total, não conseguia ver nada. Meu corpo girava no ar e eu não sabia mais onde estava, se em cima ou embaixo. Eu sentia o vento bater em meu rosto e meus cabelos ao vento. De repente, um clarão de luz apareceu ao longe e eu vi o fundo do buraco se aproximando. Meu coração pulou, me preparei para o impacto… E então, tudo ficou preto.

Eu abri os olhos e a primeira coisa que vi foi um círculo de luz lá em cima. O sol brilhava intensamente e pude ver as partículas de poeira dançando no ar. Estava deitada no fundo de um buraco fundo, e o sol parecia estar a uma distância infinita. Tentei me sentar, mas um grito de dor escapou de meus lábios. Meu corpo inteiro parecia ter sido esmagado e eu não conseguia me mover. Estava coberta de poeira e sujeira; meu rosto estava quente e uma dor indescritível tomava conta de meu braço esquerdo!

Olhei para cima; o sol parecia estar me chamando. Queria alcançá-lo, mas era impossível. O buraco era muito fundo e eu estava presa. Comecei a me lembrar da queda. Eu havia caído no buraco e não sabia como havia sobrevivido, mas sabia que precisava encontrar uma maneira de sair. Tentei gritar, mas a voz estava rouca e fraca. Não sabia se alguém poderia me ouvir. Estava sozinha e o silêncio era opressivo.

Fechei os olhos e o som do meu coração batendo era o único som que conseguia ouvir. Estava presa e não sabia se alguém viria me resgatar. Deitada no fundo do buraco, sentindo a dor e a desesperança, de repente ouvi um grito:

— MARIA! MARIA, VOCÊ ESTÁ AÍ?

Era a voz da minha avó. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Tentei gritar, mas a voz estava presa na garganta.

— VÓ! EU ESTOU AQUI! EU ESTOU AQUI EMBAIXO! — Consegui gritar, finalmente.

Ouvi os passos da minha avó se aproximando da beira do buraco. Ela se inclinou para baixo e seu rosto enrugado apareceu no círculo de luz.

— MEU DEUS, MARIA! O QUE VOCÊ FEZ? COMO VOCÊ CAIU AÍ?

Eu tentei explicar, mas as palavras não saíam. A minha avó começou a chorar; pude ver as lágrimas escorrendo por seu rosto.

— Não se preocupe, minha neta. Eu vou tirar você daí. Espere um pouco.

Eu ouvi o som de terra e pedras se movendo e, logo em seguida, a minha avó começou a descer as escadas de terra que haviam feito. Ela desceu lentamente, segurando-se nas paredes do buraco. Quando ela chegou ao fundo, me abraçou forte.

— Você está bem, minha neta? Você está ferida?

Eu sacudi a cabeça e ela me ajudou a subir as escadas. Eu estava fraca e dolorida; o braço, que parecia quebrado, doía imensamente, mas estava viva. E com a ajuda da minha avó, consegui sair do buraco.

Quando eu finalmente cheguei à superfície, me sentei no chão, respirando fundo. A minha avó me abraçou novamente e pude sentir o seu calor e o seu amor; pude ver pelo esgar de sua face seus olhos se enchendo de lágrimas que novamente iam escorrendo…

— Eu nunca mais vou te deixar sozinha — ela disse, com a voz traída pela emoção.

E até hoje, anos após minha avó virar estrela, sinto sua presença constante iluminando meus caminhos, como um anjo protetor que me faz sorrir e me sentir segura e amada. E juntas nós caminhamos pela vida, como naquele dia em que ela me resgatou do vazio, de volta para casa, deixando o buraco para trás.

Sobre a Autora

Gicelma Chacarosqui é uma das vozes mais respeitadas na academia e na literatura regional. Sua trajetória inclui:

  • Pós-doutorados: Em andamento pela Universidade de Salamanca (Espanha) e concluído pelo ECCO/UFMT.
  • Doutorado: Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.
  • Mestrado e Graduação: Estudos Literários e Letras (Português/Literatura Brasileira) pela UFMS.
  • Atuação Profissional: Professora Titular da UFGD.
  • Distinções: Membro da Academia Douradense de Letras e da UBE-MS (União Brasileira de Escritores).
  • Publicações: Autora de diversos livros e artigos em periódicos especializados.
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