As frases foram ditas em tom controlado, quase protocolar, mas carregadas de densidade política. O contrapontoMS ouviu de uma fonte das mais credenciadas com influência na Câmara Municipal de Dourados que “não é bom para ninguém”, mas que “é necessário enfrentar” e que “a Casa precisa ser protagonista de suas ações e ser respeitada”. A avaliação indica que o processo contra Isa “Cavala” Marcondes deixou de ser tratado apenas como rito disciplinar e passou a ocupar o terreno da afirmação institucional. Não se trata de “questão de ordem” regimental, dessas invocadas em apartes de plenário, mas de uma disposição de assumir o desgaste interno — cortar a própria carne — para reafirmar autoridade em momento sensível.
O que se percebe, nos bastidores, é que o destino da vereadora parece menos aberto do que oficialmente se admite. O prazo de 90 dias concedido à comissão processante coincide de maneira quase matemática com a aproximação das convenções partidárias. Em política, coincidências temporais raramente são acidentais. Julgar antes das convenções significa impedir candidatura sub judice, reduzir risco de efeito mártir e evitar que o plenário se transforme em palanque eleitoral permanente.
Há ainda outro elemento que ajuda a entender a pressa: o comando da Câmara ainda não sabe o que fazer com o seu próprio bode na sala da presidência. O imbróglio da reforma do prédio da Casa, que atravessou as três gestões consecutivas do emedebista Laudir Munaretto, ainda vereador, que se lembre, continua como sombra incômoda. A atual presidência promoveu auditoria, mas o caso segue sensível. Num ambiente assim, cortar a própria carne pode ser menos demonstração de rigor e mais movimento de sobrevivência institucional. Antes que o Ministério Público acelere investigações externas, a Casa sinaliza que é capaz de agir internamente.
Nesse contexto, ganha força nos corredores a expressão que circula com naturalidade preocupante: “é uma ordem”. Não ordem formal, registrada em ata, mas orientação política clara de que o caso precisa ter desfecho antes que o calendário eleitoral contamine o rito. O argumento é pragmático: as eleições devem transcorrer em clima minimamente civilizado. Traduzindo do dialeto político, significa retirar da disputa um fator de tensão permanente.
A equação se complica quando se observa a composição da própria Câmara. A maior bancada segue alinhada à cartilha do poderosíssimo deputado Zé Teixeira, cuja influência atravessa legislaturas com a mesma estabilidade com que atravessa reeleições. Inclusive a própria Isa, agora ré no processo, integra formalmente esse campo político. O silêncio do decano estadual, nesse momento, diz mais que qualquer declaração pública. Em ambiente assim, decisões não costumam ser improvisadas.
O único fator externo capaz de diluir o foco é a Copa do Mundo. Enquanto a comissão processante corre contra o relógio, o país estará dividido entre as sessões plenárias e a performance de Vini Jr. & Cia. em gramados norte-americanos. Resta saber o que dará mais audiência: as enfadonhas sessões da Câmara ou a seleção em campo. Mas, conhecendo a temperatura política de Dourados, não seria surpresa se o Jaguaribe, com sua crônica permanente de poder local, superasse o espetáculo esportivo em interesse regional.
O que está em curso não é apenas o julgamento de uma vereadora combativa. É um teste de autoridade institucional. A Câmara precisa demonstrar que controla sua própria narrativa antes que forças externas a controlem. E, ao que tudo indica, a decisão já não gira apenas em torno de provas ou argumentos técnicos, mas de timing, conveniência e estabilidade eleitoral.
Se a ordem existe ou se é apenas convergência silenciosa de interesses, o tempo dirá. O que se sabe é que o relógio corre, as convenções se aproximam e, quando política e calendário caminham juntos, raramente o desfecho é aleatório.
PS.: Regimentalmente, pedidos de “questão de ordem” são prerrogativas de vereadores, assim como de deputados e senadores, formulados em plenário e dirigidos à Presidência da Mesa para esclarecer dúvidas sobre o cumprimento do Regimento ou a condução dos trabalhos. Tratam de rito, não de hierarquia. No caso presente, porém, a expressão parece ter adquirido outra camada de significado. Resta saber se a eventual “questão de ordem”, ao que tudo indica menos regimental e mais estratégica, virá acompanhada de notificações formais ou apenas de recados políticos dirigidos à base de sustentação. Porque, como ensina a sabedoria popular que atravessa legislaturas, manda quem pode, obedece quem tem juízo.
