De mãos dadas, cabelos brancos, nos rostos marcas de dor. Física ou mental? Possivelmente as duas. O andar é incerto, como se tivessem medo de tropeçar. Formam um só volume, um bloco único. Duas pessoas — e, ao mesmo tempo, uma só.
Talvez as articulações os façam sofrer. Estão juntos para se fortalecerem, como uma tábua de salvação — ou melhor, um bote salva-vidas que pode afundar a qualquer momento. Por isso têm medo. Olham para o futuro? Que futuro? Os caminhos chegam ao limite. Que desejo têm de partir?
E se ele partisse antes de mim? E se ela partisse antes de mim? O que fazer?
Colar-se um ao outro ainda mais. Impedir que os medos se fortaleçam. Partir, os dois, de mãos dadas? Mas como, se ainda acham que devemos ser humilhados nos tempos finais? Passar dias deitados, olhando para o teto, sem poder andar, usando fraldas, tentando abafar as dores com o que existe na farmácia?
O direito de partir dignamente já existe na Suíça, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Espanha e, desde 2023, também em Portugal. Recentemente, o tema foi votado na Câmara dos Deputados francesa e deve seguir para apreciação do Senado. As condições são rigorosas: ser maior de idade; ser francês ou residir de forma estável na França; estar acometido por uma doença grave e incurável; sofrer de maneira insuportável e refratária aos tratamentos; e estar apta a expressar uma vontade livre e esclarecida.
O pedido deve ser formulado explicitamente pelo paciente e analisado por vários profissionais de saúde, de forma colegiada. Um prazo de reflexão é concedido à pessoa, e a decisão deve ser fundamentada e registrada.
Partir juntos. Os dois. Dignamente — é o que desejam. A lei ainda não foi votada e, nos termos atuais, talvez não seja possível para eles.
Como partir sem dores, sem impossibilidades físicas? Andar, subir montanhas, descobrir, no topo, o mundo. O mundo verde, cheio dos sons da natureza. Sentar-se para ouvir o canto da floresta, dos pássaros, dos animais e das águas descendo os morros, formando cachoeiras. Sair voando, vendo as pequenas coisas lá embaixo.
Família? Alguém que possa cuidar, preocupar-se com eles? Amigos? Nessa altura da caminhada, muitos já se foram. Os poucos que restam devem estar nas mesmas condições físicas e mentais.
Futuro inexistente. Refugiar-se no passado? Que passado veem agora? Quantas viagens fizeram? Quantas aventuras os estimularam?
Vida vivida.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
