São Paulo, Jodhpur (Índia) e Washington – Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã de surpresa na manhã deste sábado (28), em uma ação mirando a cúpula da governo e das Forças Armadas do país persa. O futuro do regime islâmico instalado em 1979 e das relações de poder no Oriente Médio agora está em suspenso.
Em retaliação, os iranianos lançaram barragens de mísseis e drones contra Israel e ao menos quatro bases americanas na região, levando a guerra a aliados árabes de Washington: Qatar, Kuwait, Barhain e Emirados, onde ao menos uma pessoa morreu, foram atingidos.
Imagens e relatos que conseguiram furar o bloqueio da internet no Irã indicam que o alvo principal na capital foi a região que concentra o palácio presidencial e a residência do líder supremo, Ali Khamenei. Colunas de fumaça e explosões eram visíveis também no aeroporto Mehrabad.
Tanto Khamenei quanto o presidente Masoud Pezeshkian foram declarados vivos pelas agências de notícias estatais, mas ainda não há imagens dos dois. Segundo o Crescente Vermelho, ao menos 20 das 31 províncias do país foram atingidas, e a agência Irna disse que ao menos 40 pessoas morreram quando uma escola foi atingida em Minab (sul).
A ação, chamada de Operação Fúria Épica pelos EUA e Leão Rugindo por Israel, ocorreu mesmo depois de ter sido marcada uma quarta rodada de negociações entre americanos e iranianos acerca do programa nuclear de Teerã, que o presidente Donald Trump disse querer ver desmantelado completamente.
Em um vídeo divulgado na sua rede Truth Social, Trump sugeriu a derrubada do regime, instando os moradores a tomar os prédios governamentais. Em janeiro, ele havia prometido ajudar manifestantes reprimidos brutalmente por Teerã, mas recuou e passou a focar a questão nuclear.
“Há pouco, os militares dos EUA iniciaram grandes operações de combate no Irã. O nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças do regime iranianos. Um grupo vicioso de pessoas terríveis”, disse o republicano. “Entreguem suas armas ou enfrentem a morte certa.”
O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, disse que a ação “criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas próprias mãos”. “Chegou a hora de todos os setores do povo no Irã se livrarem do jugo da tirania e trazerem um Irã livre e amante da paz”, afirmou.
Já o Ministério das Relações Exteriores iraniano disse que os ataques contra o país tiveram como alvo uma série de instalações militares e civis em várias cidades, e que eles acontecem “no meio de um processo diplomático”.
Ainda não há detalhes claros do escopo da ação. Se Khamenei estiver morto, se tornará o primeiro chefe de Estado no poder assassinado por Washington na história. O iraniano de 86 anos liderava seu país desde 1989, quando morreu o fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini.
As negociações ocorridas na quinta-feira (26) na casa do embaixador omani em Genebra eram consideradas cruciais. Ao fim delas, os mediadores e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, anunciaram progresso e nova rodada em Viena na semana que vem.
Na terça-feira (24), Trump havia reiterado que preferia uma solução diplomática para a crise, mas que estava pronto para agir e impedir que o Irã obtivesse a bomba atômica.
Em junho do ano passado, Trump havia atacado três centrais nucleares do país no âmbito da guerra de 12 dias que o Irã travava com Israel, principal aliado dos EUA na região. O republicano se gabava de ter acabado com o programa iraniano —algo discutível, em especial à luz da nova ação.
O que se sabe, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica, é que os iranianos haviam mantido 440 kg de urânio enriquecido a 60%, perto dos 80%-90% necessários para uma bomba nuclear completa, mas suficientes para talvez 15 artefatos limitados.
Em janeiro, o presidente dos EUA havia ameaçado atacar sob o pretexto de evitar morte de manifestantes que participavam dos maiores protestos contra a teocracia desde sua criação, iniciados pela crise econômica aguda do país, mas ampliados pela insatisfação generalizada.
Trump chegou a dizer que “a ajuda estava a caminho”, só que, sem forças mobilizadas para uma ação maior, voltou atrás. Israel também pediu “mais tempo” para se preparar para o conflito.

Sob Trump, se havia regra limitando ações diretas, isso mudou. Em 3 de janeiro, o americano havia capturado o ditador Nicolás Maduro e sua mulher num ataque à Venezuela, de resto uma aliada do Irã, da Rússia e da China.
Se a teocracia foi decapitada, o que acontece agora é incerto e depende do escopo e da duração da operação americana, que pode visar a destruição da cadeia de comando da Guarda Revolucionária, o principal ente militar da pais.
Do ponto de vista sucessório, no caso da ausência do líder é prevista a criação de uma junta formada pelo presidente do país, Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário e um membro do Conselho dos Guardiões, órgão com 6 clérigos e 6 juristas.
O grupo governa até a reunião dos 88 membros da Assembleia de Peritos, clérigos eleitos mas que precisam do aval do Conselho, que definirá o nome do sucessor de Khamenei. Com a suspeita morte em acidente aéreo do presidente radical Ebrahim Raisi, em 2024, o favorito era um dos filhos de Khamenei, Mojtaba, 56.
Nada disso é provável com o país sob ataque. A chance de a Guarda tomar as rédeas, se sobreviver de forma organizada, não é desprezível também, tornando o autocrático Estado religioso numa ditadura militar sob linhas semelhantes.
Outra opção é uma guerra civil, dado que não está nos planos e na capacidade mobilizada de Trump a hipótese de uma ação terrestre para empoderar algum grupo no comando.
Este era um temor de ativistas, que buscaram eleger a figura do filho do xá deposto pelos aiatolás, Reza Pahlavi, como nome consensual, o que parecia ilusório dado o distanciamento do príncipe homônimo, radicado nos EUA.
O príncipe herdeiro do Irã afirmou neste sábado que a ajuda esperada dos EUA chegou. “Trata-se de uma intervenção humanitária e seu alvo é a República Islâmica, seu aparato de repressão e sua máquina de matar, não o grande país e nação Irã”, disse ele, também pelas redes sociais.
Igor Gielow, Guilherme Botacini e Isabella Menon/Folha de S.Paulo
