Mateus Rocha
Quando era adolescente, Édouard Louis sentiu um incômodo ao assistir à peça “Anjos na América”. Criado pelo dramaturgo americano Tony Kushner, o espetáculo se tornou um clássico ao tematizar a epidemia da Aids para discutir relações homoafetivas.
Diante de atores que se beijavam sobre o palco, Louis foi confrontado pela própria homossexualidade, um segredo que ele escondia havia anos. “A peça me fez ver algo que eu não queria ver sobre mim mesmo. Essa é justamente a importância da arte — deixar as pessoas desconfortáveis e nos fazer enxergar coisas que não queremos ver”, afirma o francês, nesta entrevista à Folha de S.Paulo, desta segunda-feira.
Desde que começou a carreira, há pouco mais de uma década, Louis se tornou um fenômeno literário ao confrontar os leitores com fatos que eles gostariam de ignorar. Foi isso o que ele fez, por exemplo, em seu primeiro livro, intitulado “O Fim de Eddy”.
Na obra, ele descreve sua juventude em Hallencourt, uma região marcada pela pobreza no norte da França. O livro, porém, foi recebido com incredulidade antes mesmo de seu lançamento. À época, um editor se recusou a publicar a obra, argumentando que a miséria descrita no trabalho não existia na França.
Os livros seguintes também jogaram luz sobre temas indigestos da sociedade francesa, como homofobia, racismo e dominação de classe. Para analisar esses fenômenos, Louis usa como base a própria vida —um estilo conhecido como autoficção. Esse gênero tem admiradores fervorosos, mas coleciona críticos ferrenhos.
“A autoficção é questionada por ser mais próxima da realidade, e a classe dominante rejeita tudo aquilo que é visto como próximo demais do real”, diz o escritor. “Quando eu escrevo, sempre tento trazer para a literatura o que geralmente se mantém fora dela, o que é precisamente definido como o oposto da literatura.”
Por óbvio, esse projeto literário fez dele persona non grata em alguns setores. Ele diz receber ataques constantes e que produtores de cinema já barraram adaptações de seus livros por ser um autor ligado à esquerda. A arte cênica, por outro lado, parece mais receptiva ao escritor.
A Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp, começará nesta sexta com a peça “História da Violência”, adaptação do livro de mesmo nome lançado pelo francês há dez anos. O festival montará também “Quem Matou Meu Pai”, monólogo em que ele leva aos palcos um de seus livros mais incendiários. Na obra de mesmo nome, ele acusa líderes como Emmanuel Macron pela derrocada de de seu pai. Críticos, porém, afirmaram que o trabalho é político demais para ser literário.
“A literatura devia ser um país sem fronteiras. Na prática, porém, criaram uma polícia literária para dar multas e punições para quem desrespeita regras ou ultrapassa fronteiras”, afirma o romancista. “É exatamente como fazem os Estados autoritários.”
Alguns acadêmicos e críticos literários defendem que a autobiografia é um gênero menor em comparação à ficção. Por que esse estilo ainda sofre resistência?
De fato, a autobiografia sempre precisa se justificar por ser vista como menos literária, menos séria e menos prestigiosa. Tenho a impressão de que esse gênero está sendo questionado por ser mais próximo da realidade, e a classe dominante rejeita tudo aquilo que é visto como próximo demais do real.
Uma das melhores críticas que um escritor pode receber é quando dizem que tudo em sua obra é sugerido, e não explicitado. Os críticos falam que o importante é a liberdade do leitor para interpretar o que quiser. Por outro lado, ser explícito seria uma forma de ditar a emoção das pessoas. No meu trabalho, não estou interessado na liberdade do leitor. É o oposto. Eu quero forçar todos a serem confrontados com o que eles não querem ver.
Quando escrevo, sempre tento trazer para a literatura o que é precisamente definido como o oposto da literatura, como a violência ou o nome dos políticos que destroem nossas vidas. Quando lancei “Quem Matou Meu Pai”, o establishment literário me atacou e disse que esse livro não era literatura porque eu mostrava como decisões políticas de Emmanuel Macron e Nicolas Sarkozy afetaram meu pai. Para essas pessoas, literatura não é sobre isso, e sim sobre natureza, eternidade e sentimentos.
Mas acredito que eu posso escrever sobre Macron e que outras pessoas ainda podem escrever sobre árvores e folhas caindo sobre o chão. É possível que esses dois grupos existam no mesmo espaço. É sempre estranho quando as pessoas dão lições sobre o que é literatura.
Ao contrário de nações autoritárias, a literatura devia ser um país sem fronteiras. Na prática, porém, as pessoas criam uma polícia literária para distribuir multas e punições para quem desrespeita regras ou ultrapassam fronteiras. É exatamente como fazem os Estados autoritários.
No ano passado, uma entrevista com a tradutora e acadêmica Aurora Fornoni Bernardini publicada na Folha de S.Paulo gerou grande repercussão no Brasil depois de ela afirmar que o trabalho de Annie Ernaux e de Elena Ferrante não seria literatura em razão de uma suposta ênfase no tema em detrimento da forma. De que maneira você enxerga essa posição?
Em primeiro lugar, essa é uma declaração pobre, porque Elena Ferrante e Annie Ernaux não têm nada a ver. Ernaux é uma grande escritora que reinventou a literatura, enquanto Ferrante está fazendo romance para adolescentes. Não é porque são produções voltadas ao âmbito pessoal que ambas as escritoras são a mesma coisa.
Em segundo lugar, qual é o problema de um livro ser apenas sobre o assunto? Isso está tirando algo de alguém? Está impedindo uma pessoa de fazer outra coisa? Não, não está. No fundo, há um certo imperialismo em dizer que algo está excluído do reino da literatura. É mais uma vez um caso daquela polícia da literatura. Acredito que os livros de Elena Ferrante sejam realmente ruins, mas literatura ruim tem o direito de existir. Livros ruins não impedem a existência de livros bons.
A cultura é um campo que se apresenta como contrário à política e à economia. Há tantas frases sobre o poder da cultura de abrir os olhos das pessoas e construir pontes entre elas. Mas, na verdade, o mundo literário tem os mesmos mecanismos de violência, exclusão, dominação e imperialismo que você encontra na economia. É exatamente a mesma coisa. Algumas pessoas concentram capital, enquanto outras têm esse mesmo capital negado.
Em entrevistas e aparições públicas recentes, você tem confrontado com grande frequência todo esse sistema literário. Qual é o preço a ser pago por questionar o modus operandi da literatura?
O nível de ataques que recebi nos últimos anos foi perturbador e desestabilizador. Você cria muitos inimigos quando confronta as pessoas com o que elas não querem ver. Na França, há muitas pessoas que queriam, por exemplo, fazer filmes sobre os meus livros, mas foram impedidas por produtores. Eles disseram que não queriam adaptar obras de um autor esquerdista.
Talvez seja mais difícil agora do que era nos anos 1960 ou 1970, quando Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir estavam escrevendo. O campo político tem se movido cada vez mais para a direita, e o mundo cultural não está fora disso. Há uma ‘direitização’ do campo cultural. Então, é provavelmente mais difícil do que era antes. Por esse motivo, estamos criando mais. O fato de ser mais difícil hoje em dia só me estimulou a não parar de escrever.
Numa entrevista no ano passado, você disse que se sente incomodado quando está em protestos da esquerda e ouve manifestantes fazerem de homens brancos heterossexuais os vilões do momento. De onde vem esse incômodo?
Fiz esse comentário durante o lançamento de “Desmoronamento”, um livro sobre a morte de meu irmão, aos 38 anos. Meu pai, por sua vez, tem menos de 60 anos e não consegue mais andar sem uma máquina para respirar. Seu corpo foi completamente destruído pelo trabalho dentro de uma fábrica.
Nas ruas, pessoas com quem estou lutando e de quem sou aliado estavam falando sobre o problema e a violência dos homens brancos heterossexuais. Lembrei, então, de meu irmão, que tinha acabado de morrer, e de meu pai, que de certa forma está morrendo ainda jovem. Pensei que não era justo e que não deveríamos pôr as coisas apenas nesses termos na linguagem política.
Claro, eu não nego que pessoas brancas tenham privilégios sobre pessoas negras nem que heterossexuais tenham privilégio em relação a gays. Sei que posições de poder vêm com privilégios. Mas resumir isso como a categoria essencial, como homens brancos heterossexuais, é esquecer a complexidade da dominação social e o fato de que aquilo que dá poder a você num momento pode ser o que destrói você em outro momento e vice-versa.
Talvez por causa das redes sociais, temos uma tendência a simplificar a linguagem política e usar slogans que são muito fracos. Slogans podem ser uma forma de nos emanciparmos, mas às vezes são um obstáculo para termos um pensamento mais amplo.
Você prefere então pensar a sociedade a partir de processos políticos maiores, e não a partir de identidades isoladas?
Sim, claro. Hoje, pessoas falam de suas identidades como uma propriedade, algo que me parece uma mentalidade hipercapitalista. Esse sistema triunfou a tal ponto que até a identidade se tornou propriedade privada. As pessoas querem ter casa, carro e uma identidade que pertença a elas. Não acho que exista nada mais estúpido do que algo assim.
É um equívoco porque identidade não define a sua relação com o mundo, embora possa afetar isso. Quando alguém é negro ou gay, talvez veja coisas que outras pessoas não vejam e tente conscientizar sobre essas questões.
No entanto, conheci muitos gays que eram homofóbicos e muitas mulheres que eram contra os direitos das mulheres. Por isso, digo que identidade não define a sua relação com o mundo. Não julgo as pessoas com base nas tribos às quais elas parecem pertencer por achar que isso é um dos efeitos do capitalismo.
A Mostra Internacional de Teatro de São Paulo apresentará neste mês ‘Quem Matou Meu Pai’ e ‘História da Violência’, espetáculos baseados em dois de seus romances mais célebres. Você já disse que o teatro fez você olhar para partes de si mesmo que não queria reconhecer. Quais partes eram essas?
Uma das primeiras memórias fortes que eu tenho em relação ao teatro foi formada ainda no ensino médio, quando fomos ver uma peça chamada “Anjos na América”, um dos trabalhos mais importantes sobre homossexualidade da história da dramaturgia. Nesse momento, eu tinha muita vergonha do meu próprio corpo e da minha própria sexualidade.
E, lá no palco, eu vi homens se beijando, fazendo amor, se amando e vivendo juntos. Isso me confrontou de repente com tudo de que eu estava tentando fugir havia anos. O choque foi tão grande que acabei me levantando no meio da peça e disse para todos que não queria ver aquela coisa de viado. Fugi do teatro, mas era tarde demais. Algo dentro de mim tinha sido tocado, mas eu não estava preparado para ver.
Se fosse um livro, por exemplo, teria sido mais fácil colocar a obra de lado. Mas, num teatro cercado de pessoas, era muito mais difícil escapar. Isso me fez ver algo que eu não queria enxergar sobre mim. Essa é justamente a importância da arte —deixar as pessoas desconfortáveis e nos fazer enxergar coisas que não queremos ver.
Raio-X | Édouard Louis
França, 1992. Formado em sociologia pela École Normale Supérieure, em Paris, estreou na literatura em 2014, quando lançou o livro “O Fim de Eddy”, obra em que descreve a sua infância marcada por pobreza e homofobia no interior da França. Em seguida, publicou livros como “História da Violência”, “Quem Matou Meu Pai”, “Monique se Liberta” e “Mudar: Método”, se tornando um fenômeno da literatura de hoje.
