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segunda-feira, março 2, 2026

Guerra no Oriente Médio cresce com múltiplos fronts e ataques entre Israel e Hezbollah; ações do Irã aumentam tensão com Europa

Conflito se espalha pela região em momento que liderança americana e iraniana discordam sobre abertura de processo de diálogo para normalização

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A guerra entre EUA, Israel e Irã, iniciada no sábado com o ataque conjunto americano-israelense contra o território da nação persa, cresceu em extensão entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira, com as confirmações dos ataques trocados pelas Forças Armadas do Estado judeu e o Hezbollah, grupo libanês aliado de Teerã por meio do “Eixo da Resistência”, e do bombardeio de drones iranianos a uma base do Reino Unido no Chipre — país insular na fronteira geográfica e cultural entre Ásia e Europa. A escalada ocorre em um momento em que há dúvidas sobre o espaço para negociação, em meio às declarações do presidente americano, Donald Trump, sobre um possível início de conversa com as lideranças iranianas — o que foi negado por autoridades de Teerã nesta segunda.

O Hezbollah lançou foguetes contra o território israelense durante a madrugada, rompendo um frágil cessar-fogo mantido desde o último confronto de alta intensidade entre os inimigos históricos, em uma ação que a liderança do movimento afirmou ser uma retaliação pela morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Sirenes de emergência soaram por Israel, sobretudo no norte do país, com os militares realizando uma operação dupla de interceptação e ataque aéreo contra o Líbano.

Os bombardeios israelenses ao norte atingiram regiões de Beirute e no sul libanês. Mortes foram relatadas na cidade de Tiro, ao sul, e em outras partes do país. A mídia estatal mencionou 31 mortos, em um balanço parcial. Autoridades militares disseram que os alvos eram o alto comando do grupo, considerado uma organização terrorista por Israel, com o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmando que o secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, “vai terminar como Khamenei”. O Exército israelense confirmou a morte do chefe da inteligência do grupo, Hussein Moukalled.

O governo do Líbano, que não entrou em guerra com Israel durante os confrontos recentes entre o Estado judeu e o Hezbollah, condenou de forma oficial os ataques lançadas contra o país vizinho a partir do seu território. O primeiro-ministro Nawaf Salam afirmo que tal tipo de decisão cabe apenas ao Estado, e pediu a proibição das atividades militares do movimento xiita.

A entrada do Líbano na lista dos países diretamente afetado pelos enfrentamentos militares desde os primeiros ataques no sábado aumenta o temor de que o conflito se aprofunde ainda mais. A retaliação maciça do Irã após ser bombardeado alcançou praticamente todos os países da região, com novos incidentes envolvendo interceptações de projéteis e alvos atingidos em uma vasta região, incluindo Arábia Saudita, Bahrein e Jordânia nesta segunda-feira. A Embaixada americana no Kuwait foi alvo de drones, e aviões americanos caíram no país, no que foi descrito pelo comando militar dos EUA como um caso de “fogo amigo”. Em Omã, uma pessoa morreu após um navio-petroleiro ser atingido por um drone naval iraniano.

Lideranças de países do Golfo se reuniram no domingo e anunciaram que se reservam a responder ao que consideram ataques diretos iranianos. Teerã afirma que os ataques se limitam a alvos americanos e retrata a resposta como um movimento legítimo a uma “declaração de guerra aos muçulmanos”. Por outro lado, infraestrutura civil tem sido atacada. O Catar afirmou que uma central elétrica foi atingida por drones do Irã.

A Guarda Revolucionária Iraniana vem operando sob intensa pressão dos ataques conjuntos de EUA e Israel. O comando militar afirmou ter lançado nesta segunda-feira um ataque com mísseis ao Gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Não há confirmação de danos por parte do Estado judeu, que já acusou os iranianos de investirem em uma guerra de propaganda — no sábado, a Guarda Revolucionária disse ter atacado o porta-aviões americano Abraham Lincoln com quatro mísseis, informação que depois foi rejeitada pelo Pentágono, que afirmou que os projéteis sequer estiveram perto da embarcação.

Enquanto isso, novos ataques são registrados em Teerã. Fortes explosões foram ouvidas em vários bairros da capital. Testemunhas no solo afirmaram que as explosões sacudiram apartamentos nas zonas central e leste da capital.

Até o momento, os EUA confirmam a morte de quatro militares, três deles em uma base no Kuwait. Israel anunciou que nove pessoas morreram em um ataque iraniano no centro de Israel. No Irã, 555 pessoas morreram até o domingo, segundo balanço do Crescente Vermelho.

Tensões chegam à Europa

Embora o começo das hostilidades já tenha tido implicações globais, com a maior alteração do tráfego aéreo global desde a pandemia e interrupções do trânsito naval em uma importante rota para o setor de petróleo e gás, as ações ostensivas do Irã romperam a barreira regional nesta segunda e elevaram o nível da tensão com a Europa. Drones iranianos atacaram uma base do Reino Unido no Chipre, no Mar Mediterrâneo, forçando uma retirada do pessoal militar destacado na região e provocando uma reação de atores europeus.

Cerca de 70 veículos deixaram a área da base de Akrotiri, na costa sul do país, segundo fontes locais, após o ataque de um drone iraniano. O governo cipriota comunicou posteriormente ter interceptado outros dois drones que seguiam em direção à base.

Um caça decola da base aérea britânica em Akrotiri após dois ataques com drones iranianos — Foto: AFP
Um caça decola da base aérea britânica em Akrotiri após dois ataques com drones iranianos — Foto: AFP

O ataque iraniano acontece após o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciar ter autorizado os EUA a usarem as bases do Reino Unido na região para “ações defensivas” — citando bombardeios ao programa de mísseis iraniano. O premier trabalhista afirmou que o país não se somaria a nenhuma ofensiva, e autoridades do governo reforçaram a mensagem de que o Reino Unido não está em guerra. Em entrevista ao The Daily Telegraph, Trump disse estar “decepcionado” com Starmer, afirmando que o líder trabalhista demorou muito para conceder ao pedido americano.

A resposta europeia ao ataque americano-israelense ao Irã foi mista. Autoridades espalhadas pelo continente pediram contenção de todas as partes envolvidas, mas uma série de lideranças, incluindo o presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler da União Europeia, Kaja Kallas, classificaram a morte de Khamenei como um marco. Embora demonstrem preocupação com a desestabilização provocada pelo conflito, muitos rejeitaram discutir a legalidade dos ataques neste momento. Outros se propuseram a se somar a ações defensivas à retaliação iraniana.

O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, anunciou nesta segunda-feira que o país está preparado para defender os países do Golfo e a Jordânia dos mísseis e drones iranianos, se necessário. A Grécia enviou duas fragatas e dois caças F-16 para o Chipre após o ataque à base do Reino Unido, e prometeu defender o país em caso de agressões externas.

A movimentação europeia é acompanhada de perto por Israel. O embaixador israelense em Berlim, Ron Prosor, que apontou para os ataques desta segunda-feira à estrutura britânica como um sinal de que Teerã está tentando implicar os europeus neste conflito.

— Espero que a Europa veja isso e responda de acordo. A forma como responderá é uma decisão que será tomada na Europa — disse o embaixador, criticando os países europeus pela tolerância com o regime iraniano e o espaço para negociações. — Durante 47 anos, este regime de aiatolás negociou com a Europa, contando histórias das Mil e Uma Noites, essencialmente manipulando a Europa.

Incerteza sobre desescalada

O presidente americano, Donald Trump, apresentou a guerra como um esforço para dizimar grande parte das capacidades militares do Irã e abrir caminho para a derrubada do regime autoritário da República Islâmica. Em entrevista ao The New York Times, Trump afirmou que pretende manter a ofensiva por “quatro ou cinco semanas”, mas que os novos líderes do Irã teriam comunicado que desejavam dialogar, e que ele estava disposto a fazê-lo.

A liderança iraniana rejeitou o diálogo e qualquer desescalada na manhã desta segunda-feira. Em duas declarações separadas, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani, acirrou a retórica contra os EUA. Primeiro, em uma publicação nas redes sociais, disse que o país não negociaria, acrescentando que o “pensamento ilusório” de Trump arrastou a região para uma guerra desnecessária que só beneficiou Israel. Posteriormente, prometeu manter os combates.

“O Irã, ao contrário dos Estados Unidos, se preparou para uma guerra longa”, escreveu Larijani na rede social X. (Com NYT e AFP)

O Globo, com agências internacionais — Teerã, Tel Aviv e Washington

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